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Doença do carrapato em cães: sintomas, tratamento e prevenção
Resposta rápida
"Doença do carrapato" é nome popular para pelo menos duas doenças diferentes, com agentes e tratamentos distintos. A erliquiose é causada pela riquétsia Ehrlichia canis e tratada com antibiótico, geralmente por 10 a 21 dias. A babesiose é causada por protozoários do gênero Babesia — no Brasil, a B. vogeli, transmitida pelo carrapato marrom do cão — e tratada com antiparasitários específicos, como o dipropionato de imidocarbe. As duas podem ser transmitidas pelo mesmo carrapato e causam sinais parecidos, e é por isso que o exame laboratorial define a conduta.
“Doença do carrapato” não é uma doença
É um apelido que cobre pelo menos duas doenças diferentes, com agentes de naturezas distintas e tratamentos que não se substituem:
| Erliquiose | Babesiose | |
|---|---|---|
| Agente | Ehrlichia canis, uma riquétsia | Babesia spp., um protozoário |
| No Brasil | Transmitida pelo carrapato marrom do cão | B. vogeli, transmitida por Rhipicephalus sanguineus |
| Efeito característico | Queda de plaquetas | Destruição de hemácias, com anemia |
| Tratamento | Antibiótico, geralmente por 10 a 21 dias | Antiparasitário específico — aceturato de diminazeno, dipropionato de imidocarbe |
A consequência prática é direta: remédio de uma não trata a outra. E como os sinais iniciais se parecem — febre, apatia, perda de apetite —, é o exame laboratorial que separa uma da outra e define a conduta.
Um mesmo cão pode, inclusive, ter as duas. É por isso que “dei antibiótico e não melhorou” não significa que não seja doença do carrapato.
O vetor é o mesmo, e ele vive na sua casa
O Rhipicephalus sanguineus, o carrapato marrom do cão, é o vetor da B. vogeli em países tropicais e subtropicais — o que inclui o Brasil — e está entre os carrapatos que transmitem a erliquiose.
O que torna esse carrapato um problema doméstico é o hábito dele: diferentemente dos carrapatos de pasto, ele se reproduz dentro de casa e no canil, em frestas de parede, rodapé, telhado, casinha e cantos de muro. Por isso:
Tirar os carrapatos do cão não resolve. É preciso tratar o ambiente.
Um animal tratado que volta para o mesmo quintal infestado se reinfesta em poucos dias.
O que acontece no corpo do cão
Erliquiose. A fase aguda traz febre, aumento generalizado dos linfonodos, aumento do baço e queda do número de plaquetas. Aparecem também perda de apetite, depressão, diminuição da resistência física, rigidez e relutância em caminhar.
Sem tratamento, pode evoluir para a fase crônica — com aumento do baço, insuficiência renal e inflamação de pulmões, olhos, cérebro e medula espinhal. A perda grave de peso é comum, e as plaquetas seguem anormalmente baixas.
Babesiose. Os primeiros sinais são letargia, fraqueza, depressão e febre, frequentemente igual ou superior a 41 °C, seguidos de inapetência, anemia, icterícia e perda de peso. O parasita destrói hemácias, e o quadro varia de doença leve e transitória a doença aguda que leva rapidamente à morte.
Há ainda a Babesia gibsoni, que causa doença crônica com anemia grave e progressiva, difícil de tratar com os fármacos habituais contra Babesia.
Como o diagnóstico é feito
Não se diagnostica doença do carrapato por sintoma nem por histórico de carrapato — diagnostica-se por exame.
- Esfregaço sanguíneo corado com Giemsa, examinado ao microscópio, é descrito como essencial para confirmar a babesiose e diferenciá-la de outras causas de anemia e icterícia.
- PCR e sorologia complementam a investigação.
- Hemograma mostra as alterações que orientam a suspeita, como a queda de plaquetas.
A babesiose pode ser confundida com outras doenças que cursam com febre, anemia, destruição de hemácias, icterícia ou urina avermelhada — daí a necessidade do laboratório.
Tratamento: por que a automedicação falha
Erliquiose é tratada com antibiótico prescrito pelo veterinário, geralmente por 10 a 21 dias. A febre costuma ceder em 1 a 2 dias após o início do tratamento — o que engana muito tutor, que interrompe a medicação achando que o cão está curado. Interromper antes do prazo é uma das causas de evolução para a forma crônica.
Babesiose é tratada com antiparasitários específicos — aceturato de diminazeno e dipropionato de imidocarbe —, e casos com anemia grave podem exigir suporte, incluindo transfusão.
Nenhum dos dois é de venda livre nem de dose caseira. Escolher fármaco, dose e duração é prescrição, e prescrição é ato do médico-veterinário.
Prevenção, que é onde se ganha a briga
- Controle de carrapatos no animal, com produto adequado à espécie, ao peso e à idade, prescrito pelo veterinário.
- Tratamento do ambiente — o ponto que a maioria ignora. Frestas, rodapés, casinha, canil e cantos de muro.
- Inspeção diária do cão, especialmente orelhas, pescoço, axilas, virilha e entre os dedos.
- Remoção correta do carrapato: preso o mais rente possível à pele, com tração firme e contínua, sem torcer, esmagar ou queimar.
- Atenção redobrada em cães que convivem com outros animais ou frequentam áreas com histórico de infestação.
Quando procurar o veterinário
Sem esperar: febre, apatia, perda de apetite, mucosas pálidas ou amareladas, sangramentos — de gengiva, nariz ou pontos vermelhos na pele —, urina escura, fraqueza ou relutância em andar.
E vale insistir num ponto: um único carrapato pode transmitir. A ausência de infestação visível não afasta a suspeita, e a demora entre os primeiros sinais e o diagnóstico é o que separa um caso tratável de um caso grave.