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Brasil

Cabra leiteira: raças e manejo inicial na chácara

Resposta rápida

As raças leiteiras indicadas pela Embrapa para o Brasil são Parda Alpina, Toggenburg e Saanen, de origem europeia, e a Anglo-Nubiana, de dupla aptidão, mais rústica. A Parda Alpina produz em média 4 litros por dia em boas condições. No manejo inicial, o aprisco deve ter 0,80 a 1,0 m² por animal e piso ripado elevado; os cabritos precisam mamar o colostro nas primeiras seis horas de vida; e a gestação dura em média 150 dias. Ordenha diária e higiene contra mastite fazem parte da rotina.

Cabras leiteiras Saanen e Anglo-Nubianas em aprisco de piso ripado elevado em pequena propriedade
O aprisco de piso ripado elevado separa os animais das fezes e da umidade do chão.
Neste artigo
  1. Como está a produção de leite de cabra no Brasil?
  2. Quais são as raças leiteiras indicadas?
  3. Parda Alpina: a referência em produção
  4. Toggenburg e Saanen: as suíças
  5. Anglo-Nubiana: a mais rústica
  6. Como escolher as primeiras cabras?
  7. Que abrigo a cabra leiteira precisa?
  8. Como funciona a reprodução?
  9. Como cuidar dos cabritos nos primeiros dias?
  10. E a sanidade?
  11. Como fica a rotina diária?
  12. Posso vender o leite?
  13. Como ordenhar com higiene?
  14. Resumo

A cabra leiteira atrai quem tem chácara: ocupa menos espaço que uma vaca, come pasto e capineira e dá leite para a família. Mas é um animal que exige rotina — ordenha diária, abrigo seco, cuidado com os cabritos e atenção à sanidade. Escolher a raça certa e montar o manejo inicial bem feito evita a maior parte dos problemas do primeiro ano.

Este guia se apoia nas Recomendações técnicas para criação de cabras leiteiras, da Embrapa Meio-Norte. Ele faz parte da seção chácara e pequena criação. Para o produto em si — composição, diferenças para o leite de vaca —, veja leite de cabra: composição e diferenças.

Como está a produção de leite de cabra no Brasil?

É uma atividade pequena e concentrada. Segundo a Embrapa Gado de Leite, a produção brasileira foi de 25 milhões de litros em 2017, contra 35 milhões em 2006, enquanto o rebanho caprino cresceu e chegou a 8,25 milhões de cabeças — a maior parte voltada à carne.

A Embrapa Meio-Norte observa que a caprinocultura leiteira tem mais expressão no Sul e no Sudeste, com interesse crescente no Nordeste, e que os produtores que têm êxito atuam de forma profissional, usando as tecnologias disponíveis.

Quais são as raças leiteiras indicadas?

A Embrapa Meio-Norte lista quatro raças:

Raça Origem Aparência Peso adulto Destaque
Parda Alpina Alpes (França e Suíça) Castanha com listra dorsal negra Fêmeas acima de 40 kg; machos 70 a 100 kg Leiteira e rústica
Toggenburg Vale de Toggenburg, Suíça Cinzenta, manchas brancas na cabeça e membros Cabras ~50 kg; reprodutores ~70 kg Úbere grande, tetas simétricas
Saanen Vale do Saanen, Suíça Branca, pelos curtos Varia com a origem Boa produtora de leite
Anglo-Nubiana Inglaterra, com sangue núbio e indiano Orelhas longas e pendentes, perfil convexo Fêmeas 55 a 65 kg; machos 70 a 95 kg Dupla aptidão, rústica e prolífica

Parda Alpina: a referência em produção

Cabeça fina, perfil côncavo, orelhas curtas e eretas, pelagem castanho-clara ou escura com listra dorsal negra e úbere volumoso bem inserido. A Embrapa cita que as alpinas podem produzir em média 4 litros de leite por dia em seus países de origem ou regiões adaptadas, com registros de até 8 litros diários em algumas cabras nas primeiras semanas após o parto.

Por serem boas produtoras e rústicas, foram difundidas em vários países, inclusive no Brasil.

Toggenburg e Saanen: as suíças

A Toggenburg tem pelos compridos, pelagem cinzenta com manchas brancas na cabeça e nos membros, peito profundo e úbere grande com tetas simétricas. A Embrapa registra que ela é mantida em rebanhos puros ou cruzada com raças nativas para obter mestiços rústicos e com boa produção de leite.

A Saanen é branca, de pelos curtos, olhos claros, úbere volumoso e tetas médias a grandes — uma boa produtora de leite. A própria Embrapa faz uma ressalva: ela não é muito recomendada para algumas regiões do Nordeste, onde produtores formam núcleos puros ou cruzam com cabras locais para obter mestiças adaptadas às condições adversas.

Anglo-Nubiana: a mais rústica

Formada na Inglaterra a partir de cabras locais cruzadas com animais da Núbia (Alto Nilo) e da Índia, é de dupla aptidão — carne e leite —, considerada rústica e prolífica. É grande e pesada, com orelhas longas e pendentes e perfil convexo, e pode ter qualquer cor de pelagem.

Para quem está em região quente e quer um animal mais resistente, com leite e cabritos para corte, é a raça que costuma entrar na conversa.

Como escolher as primeiras cabras?

A Embrapa lista critérios para selecionar matrizes:

  • ausência de doenças e defeitos físicos;
  • aspecto feminino e padrão racial definido;
  • idade compatível com a reprodução;
  • boa habilidade materna;
  • úbere bem inserido, com apenas duas tetas;
  • bons cascos e aprumos;
  • histórico de gestação e parto normais, boa produção de leite e boa fertilidade;
  • em animais jovens, considerar a produção da mãe.

Peça também o histórico sanitário do rebanho de origem. Algumas doenças de caprinos, como a artrite-encefalite caprina viral (CAEV), passam da mãe para o cabrito pelo leite, e comprar animais de rebanho controlado evita trazer o problema.

Que abrigo a cabra leiteira precisa?

O aprisco é onde os animais passam a noite. A Embrapa recomenda uma construção sólida, arejada, bem iluminada, protegida da umidade e de correntes de ar, perto da casa do criador, com:

  • 0,80 a 1,0 m² de área útil por animal;
  • piso ripado, com 1 cm entre as ripas, elevado 0,80 a 1,0 m do solo — as fezes caem e o piso fica seco;
  • divisórias para cabras no fim da gestação e recém-paridas.

Sem condições de fazer o aprisco suspenso, a alternativa é um chiqueiro de chão batido com as mesmas especificações, cama de palha de arroz ou capim e piso com declive de 3% a 5%.

Complementam a estrutura:

  • currais de manejo com 1,50 a 2,00 m² por caprino adulto;
  • pedilúvio na entrada, com 2 m de comprimento e 10 cm de profundidade, para desinfecção dos cascos;
  • saleiro coberto para sal mineral;
  • área de isolamento para animais doentes ou recém-chegados.

Como funciona a reprodução?

Para a cabra produzir leite, ela precisa parir. Alguns números da Embrapa Meio-Norte:

  • Ciclo estral de cerca de 21 dias em média (varia com raça, idade, nutrição e época do ano, segundo a Embrapa Caprinos e Ovinos); o cio costuma durar em torno de dois dias, também com variação.
  • A cabra deve ser coberta quando atingir 70% do peso adulto da raça.
  • Gestação média de 150 dias, variando de 142 a 162.
  • Cabras em lactação devem ser secas 60 dias antes do parto.
  • No terço final da gestação ocorrem 70% do crescimento fetal, e a alimentação precisa acompanhar.

Em rebanho pequeno, o cio pode ser percebido pelo comportamento: a cabra fica inquieta, agita a cauda, urina com frequência, procura o macho e a produção de leite cai.

Como cuidar dos cabritos nos primeiros dias?

É a fase em que mais se perdem animais. As recomendações da Embrapa:

Colostro. As crias devem mamar o colostro nas primeiras horas de vida. As que não o recebem nas primeiras seis horas podem adoecer e morrer. O colostro deve ser fornecido até 72 horas, três vezes ao dia, na quantidade de 300 a 500 g por cria por dia, direto na mãe ou em mamadeira.

Umbigo. Cortar o cordão nas primeiras seis horas, a cerca de 2 cm do abdômen, com tesoura ou faca esterilizada, e mergulhar o coto em iodo a 10% por 30 segundos, repetindo por dois a três dias. Isso previne infecções que entram pelo umbigo.

Identificação. Brinco, coleira ou tatuagem logo após o cuidado com o umbigo, para registrar a vida do animal.

Separação e aleitamento. Em sistemas leiteiros, os cabritos são separados das mães 72 horas após o parto e passam ao aleitamento artificial. Na primeira semana, leite à vontade; a partir do 8º dia, duas vezes ao dia, na quantidade de 20% do peso corporal; a partir do 15º dia, oferecer também alimento sólido.

CAEV. Se a mãe for portadora, a cria deve ser separada logo após o parto e receber colostro de cabra não portadora ou de vaca.

Desmame. Entre 90 e 120 dias, com separação por sexo.

E a sanidade?

A Embrapa Meio-Norte aponta, entre os problemas sanitários mais relevantes das cabras leiteiras, verminoses, coccidiose, piolhos, bicheiras, sarnas, mastite, linfadenite caseosa (mal do caroço), ceratoconjuntivite, frieira, ectima contagioso (boqueira) e CAEV, além de cálculo urinário e toxemia da gestação.

A mastite merece atenção especial em cabra de leite: a contaminação pode ocorrer na ordenha sem higiene ou pelo contato do úbere com piso ou cama contaminados. Higiene na ordenha e cama limpa são a principal prevenção.

Vermifugação, vacinação e qualquer tratamento devem ser definidos com o médico-veterinário. A própria Embrapa recomenda evitar vermifugações nos primeiros 45 dias de prenhez.

Como fica a rotina diária?

Momento Tarefas
Manhã Ordenha com higiene; água limpa; observar apetite e úbere
Dia Pasto ou capineira; suplementação conforme a fase; sal mineral
Tarde Segunda ordenha, se for o manejo; recolher ao aprisco
Semanal Limpeza do aprisco e do pedilúvio; conferir cascos

Ordenha é todos os dias, inclusive fins de semana — é a decisão mais importante antes de comprar uma cabra leiteira. Se a chácara não tem alguém fixo, planeje isso primeiro, como em chácara: como organizar uma pequena criação.

Posso vender o leite?

Para venda, o leite precisa passar por inspeção sanitária, com regras municipais, estaduais ou federais conforme o destino. Leite cru vendido sem inspeção é um risco à saúde de quem consome. Antes de vender, consulte a prefeitura e o órgão estadual de defesa agropecuária.

Como ordenhar com higiene?

O leite é um alimento sensível, e a qualidade começa na ordenha. Mesmo em criação pequena, para consumo da família, vale seguir uma rotina:

  1. Ordenhe sempre no mesmo horário e no mesmo lugar, limpo e tranquilo. A cabra acostumada à rotina solta o leite com mais facilidade.
  2. Lave as mãos e use roupa limpa.
  3. Limpe e seque as tetas antes de começar, com papel descartável ou pano individual.
  4. Descarte os primeiros jatos numa caneca de fundo escuro. Grumos, sangue ou leite aguado são sinais de mastite e pedem avaliação veterinária.
  5. Ordenhe com movimentos firmes e completos, sem puxar a teta.
  6. Coe e resfrie o leite logo depois da ordenha.
  7. Lave os utensílios com água e detergente após cada uso e deixe secar.

Por segurança, consuma o leite em casa só depois de fervido ou pasteurizado. E observe o úbere todos os dias: calor, dureza, dor ou mudança no leite são motivos para chamar o veterinário cedo, antes que a mastite se agrave.

Resumo

Parda Alpina, Toggenburg e Saanen são as raças mais leiteiras; a Anglo-Nubiana é a mais rústica, de dupla aptidão. Escolha pelo clima e pela estrutura disponível, compre de rebanho com histórico sanitário, monte um aprisco de piso ripado com 0,80 a 1,0 m² por animal e cuide do colostro nas primeiras seis horas de vida dos cabritos. E só compre a cabra quando tiver quem a ordenhe todos os dias.

Perguntas frequentes

Qual a melhor raça de cabra leiteira para iniciante?

Depende do clima e do manejo. Parda Alpina, Saanen e Toggenburg são as mais leiteiras, mas exigem alimentação e instalações melhores. A Anglo-Nubiana é mais rústica e de dupla aptidão. A Embrapa observa que a Saanen não é muito recomendada para algumas regiões do Nordeste, onde mestiças com raças locais costumam se adaptar melhor.

Quantos litros de leite uma cabra dá por dia?

Varia muito com raça, alimentação e fase da lactação. A Embrapa Meio-Norte cita que cabras Parda Alpina podem produzir em média 4 litros por dia em seus países de origem ou regiões adaptadas, com registros de até 8 litros nas primeiras semanas após o parto em algumas cabras.

Quanto tempo dura a gestação da cabra?

Em média 150 dias, podendo variar de 142 a 162 dias conforme idade, nutrição, raça e número de crias, segundo a Embrapa Meio-Norte. A recomendação é secar a cabra em lactação 60 dias antes do parto, para dar descanso ao úbere.

Quanto espaço uma cabra leiteira precisa no abrigo?

A Embrapa recomenda aprisco com área útil de 0,80 a 1,0 m² por animal, piso ripado com cerca de 1 cm entre as ripas e elevado de 0,80 a 1,0 m do solo, além de currais de manejo com 1,50 a 2,00 m² por caprino adulto.

O cabrito precisa mamar o colostro?

Precisa, e cedo. O colostro transfere imunidade da mãe, tem alto valor nutritivo e efeito laxativo. A Embrapa alerta que crias que não consomem o colostro nas primeiras seis horas de vida podem adoecer e morrer, e recomenda fornecê-lo até 72 horas, três vezes ao dia.

Dá para ter só uma cabra?

Cabras são animais gregários, que vivem naturalmente em grupo, e por isso muitos criadores preferem começar com pelo menos duas em vez de manter uma cabra isolada. Além disso, para a cabra produzir leite ela precisa parir, o que exige planejar a cobertura com um reprodutor ou inseminação.

Fontes

  1. Recomendações técnicas para criação de cabras leiteiras — Circular Técnica 25, Embrapa Meio-Norte (1999), de Medeiros, Girão, Girão e Leal: raças Parda Alpina, Toggenburg, Saanen e Anglo-Nubiana; gestação média de 150 dias (142 a 162); colostro nas primeiras seis horas, até 72 horas, 300 a 500 g/cria/dia; corte do umbigo a cerca de 2 cm e iodo a 10%; desmame entre 90 e 120 dias; aprisco com 0,80 a 1,0 m² por animal, piso ripado com 1 cm entre ripas, elevado de 0,80 a 1,0 m↗
  2. Produção, composição e processamento de leite de cabra no Brasil — Circular Técnica 122, Embrapa Gado de Leite, Juiz de Fora, agosto de 2020, de Idílio José Delgado Júnior, Kennya Beatriz Siqueira e Lorildo Aldo Stock (no mundo, considerando a média de 2006 a 2009, apenas 0,5% de todo o leite produzido é de cabra, segundo a FAO; a produção brasileira foi de 25 milhões de litros em 2017, contra 35 milhões em 2006, uma retração de cerca de 29%, enquanto o rebanho caprino cresceu 16% no período, chegando a 8,25 milhões de cabeças; os cinco maiores produtores em 2017 foram Paraíba, Bahia, Minas Gerais, Pernambuco e Rio Grande do Norte, concentrando 76% da produção; as raças mais utilizadas em Minas Gerais são Saanen, Alpina e Anglonubiana; o extrato seco do leite de cabra corresponde a 12,5%; teor médio de lactose de 4,8% no leite caprino contra 4,5% no bovino; proteína total geralmente menor que a do leite de vaca, 3,1% contra 3,4%; as micelas de caseína do leite de cabra são formadas principalmente por beta-caseína, que representa 53% do total de caseínas, contra menos de 40% no leite de vaca, e a fração alfa-s1-caseína é muito menor no leite caprino, 15% do total de caseína, contra 38% no leite de vaca; há estudos que relacionam o menor potencial alergênico do leite de cabra à menor quantidade de alfa-s1-caseína; a menor quantidade dessa fração faz com que o coágulo formado pela ação da renina seja menor e de granulação mais fina e macia; segundo a Anvisa, de 1999, o leite de cabra pode ser enquadrado como alimento funcional; o sabor e o aroma típicos podem ser responsáveis pela aceitação ou rejeição do produto pelos consumidores; o mercado no Norte e Nordeste se caracteriza pela informalidade, enquanto Sul e Sudeste têm cadeia mais organizada e comercialização formal)↗oficial
  3. Embrapa Caprinos e Ovinos — Sincronização e indução do estro em caprinos e ovinos↗oficial

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