Neste artigo
- Como está a produção de leite de cabra no Brasil?
- Quais são as raças leiteiras indicadas?
- Parda Alpina: a referência em produção
- Toggenburg e Saanen: as suíças
- Anglo-Nubiana: a mais rústica
- Como escolher as primeiras cabras?
- Que abrigo a cabra leiteira precisa?
- Como funciona a reprodução?
- Como cuidar dos cabritos nos primeiros dias?
- E a sanidade?
- Como fica a rotina diária?
- Posso vender o leite?
- Como ordenhar com higiene?
- Resumo
A cabra leiteira atrai quem tem chácara: ocupa menos espaço que uma vaca, come pasto e capineira e dá leite para a família. Mas é um animal que exige rotina — ordenha diária, abrigo seco, cuidado com os cabritos e atenção à sanidade. Escolher a raça certa e montar o manejo inicial bem feito evita a maior parte dos problemas do primeiro ano.
Este guia se apoia nas Recomendações técnicas para criação de cabras leiteiras, da Embrapa Meio-Norte. Ele faz parte da seção chácara e pequena criação. Para o produto em si — composição, diferenças para o leite de vaca —, veja leite de cabra: composição e diferenças.
Como está a produção de leite de cabra no Brasil?
É uma atividade pequena e concentrada. Segundo a Embrapa Gado de Leite, a produção brasileira foi de 25 milhões de litros em 2017, contra 35 milhões em 2006, enquanto o rebanho caprino cresceu e chegou a 8,25 milhões de cabeças — a maior parte voltada à carne.
A Embrapa Meio-Norte observa que a caprinocultura leiteira tem mais expressão no Sul e no Sudeste, com interesse crescente no Nordeste, e que os produtores que têm êxito atuam de forma profissional, usando as tecnologias disponíveis.
Quais são as raças leiteiras indicadas?
A Embrapa Meio-Norte lista quatro raças:
| Raça | Origem | Aparência | Peso adulto | Destaque |
|---|---|---|---|---|
| Parda Alpina | Alpes (França e Suíça) | Castanha com listra dorsal negra | Fêmeas acima de 40 kg; machos 70 a 100 kg | Leiteira e rústica |
| Toggenburg | Vale de Toggenburg, Suíça | Cinzenta, manchas brancas na cabeça e membros | Cabras ~50 kg; reprodutores ~70 kg | Úbere grande, tetas simétricas |
| Saanen | Vale do Saanen, Suíça | Branca, pelos curtos | Varia com a origem | Boa produtora de leite |
| Anglo-Nubiana | Inglaterra, com sangue núbio e indiano | Orelhas longas e pendentes, perfil convexo | Fêmeas 55 a 65 kg; machos 70 a 95 kg | Dupla aptidão, rústica e prolífica |
Parda Alpina: a referência em produção
Cabeça fina, perfil côncavo, orelhas curtas e eretas, pelagem castanho-clara ou escura com listra dorsal negra e úbere volumoso bem inserido. A Embrapa cita que as alpinas podem produzir em média 4 litros de leite por dia em seus países de origem ou regiões adaptadas, com registros de até 8 litros diários em algumas cabras nas primeiras semanas após o parto.
Por serem boas produtoras e rústicas, foram difundidas em vários países, inclusive no Brasil.
Toggenburg e Saanen: as suíças
A Toggenburg tem pelos compridos, pelagem cinzenta com manchas brancas na cabeça e nos membros, peito profundo e úbere grande com tetas simétricas. A Embrapa registra que ela é mantida em rebanhos puros ou cruzada com raças nativas para obter mestiços rústicos e com boa produção de leite.
A Saanen é branca, de pelos curtos, olhos claros, úbere volumoso e tetas médias a grandes — uma boa produtora de leite. A própria Embrapa faz uma ressalva: ela não é muito recomendada para algumas regiões do Nordeste, onde produtores formam núcleos puros ou cruzam com cabras locais para obter mestiças adaptadas às condições adversas.
Anglo-Nubiana: a mais rústica
Formada na Inglaterra a partir de cabras locais cruzadas com animais da Núbia (Alto Nilo) e da Índia, é de dupla aptidão — carne e leite —, considerada rústica e prolífica. É grande e pesada, com orelhas longas e pendentes e perfil convexo, e pode ter qualquer cor de pelagem.
Para quem está em região quente e quer um animal mais resistente, com leite e cabritos para corte, é a raça que costuma entrar na conversa.
Como escolher as primeiras cabras?
A Embrapa lista critérios para selecionar matrizes:
- ausência de doenças e defeitos físicos;
- aspecto feminino e padrão racial definido;
- idade compatível com a reprodução;
- boa habilidade materna;
- úbere bem inserido, com apenas duas tetas;
- bons cascos e aprumos;
- histórico de gestação e parto normais, boa produção de leite e boa fertilidade;
- em animais jovens, considerar a produção da mãe.
Peça também o histórico sanitário do rebanho de origem. Algumas doenças de caprinos, como a artrite-encefalite caprina viral (CAEV), passam da mãe para o cabrito pelo leite, e comprar animais de rebanho controlado evita trazer o problema.
Que abrigo a cabra leiteira precisa?
O aprisco é onde os animais passam a noite. A Embrapa recomenda uma construção sólida, arejada, bem iluminada, protegida da umidade e de correntes de ar, perto da casa do criador, com:
- 0,80 a 1,0 m² de área útil por animal;
- piso ripado, com 1 cm entre as ripas, elevado 0,80 a 1,0 m do solo — as fezes caem e o piso fica seco;
- divisórias para cabras no fim da gestação e recém-paridas.
Sem condições de fazer o aprisco suspenso, a alternativa é um chiqueiro de chão batido com as mesmas especificações, cama de palha de arroz ou capim e piso com declive de 3% a 5%.
Complementam a estrutura:
- currais de manejo com 1,50 a 2,00 m² por caprino adulto;
- pedilúvio na entrada, com 2 m de comprimento e 10 cm de profundidade, para desinfecção dos cascos;
- saleiro coberto para sal mineral;
- área de isolamento para animais doentes ou recém-chegados.
Como funciona a reprodução?
Para a cabra produzir leite, ela precisa parir. Alguns números da Embrapa Meio-Norte:
- Ciclo estral de cerca de 21 dias em média (varia com raça, idade, nutrição e época do ano, segundo a Embrapa Caprinos e Ovinos); o cio costuma durar em torno de dois dias, também com variação.
- A cabra deve ser coberta quando atingir 70% do peso adulto da raça.
- Gestação média de 150 dias, variando de 142 a 162.
- Cabras em lactação devem ser secas 60 dias antes do parto.
- No terço final da gestação ocorrem 70% do crescimento fetal, e a alimentação precisa acompanhar.
Em rebanho pequeno, o cio pode ser percebido pelo comportamento: a cabra fica inquieta, agita a cauda, urina com frequência, procura o macho e a produção de leite cai.
Como cuidar dos cabritos nos primeiros dias?
É a fase em que mais se perdem animais. As recomendações da Embrapa:
Colostro. As crias devem mamar o colostro nas primeiras horas de vida. As que não o recebem nas primeiras seis horas podem adoecer e morrer. O colostro deve ser fornecido até 72 horas, três vezes ao dia, na quantidade de 300 a 500 g por cria por dia, direto na mãe ou em mamadeira.
Umbigo. Cortar o cordão nas primeiras seis horas, a cerca de 2 cm do abdômen, com tesoura ou faca esterilizada, e mergulhar o coto em iodo a 10% por 30 segundos, repetindo por dois a três dias. Isso previne infecções que entram pelo umbigo.
Identificação. Brinco, coleira ou tatuagem logo após o cuidado com o umbigo, para registrar a vida do animal.
Separação e aleitamento. Em sistemas leiteiros, os cabritos são separados das mães 72 horas após o parto e passam ao aleitamento artificial. Na primeira semana, leite à vontade; a partir do 8º dia, duas vezes ao dia, na quantidade de 20% do peso corporal; a partir do 15º dia, oferecer também alimento sólido.
CAEV. Se a mãe for portadora, a cria deve ser separada logo após o parto e receber colostro de cabra não portadora ou de vaca.
Desmame. Entre 90 e 120 dias, com separação por sexo.
E a sanidade?
A Embrapa Meio-Norte aponta, entre os problemas sanitários mais relevantes das cabras leiteiras, verminoses, coccidiose, piolhos, bicheiras, sarnas, mastite, linfadenite caseosa (mal do caroço), ceratoconjuntivite, frieira, ectima contagioso (boqueira) e CAEV, além de cálculo urinário e toxemia da gestação.
A mastite merece atenção especial em cabra de leite: a contaminação pode ocorrer na ordenha sem higiene ou pelo contato do úbere com piso ou cama contaminados. Higiene na ordenha e cama limpa são a principal prevenção.
Vermifugação, vacinação e qualquer tratamento devem ser definidos com o médico-veterinário. A própria Embrapa recomenda evitar vermifugações nos primeiros 45 dias de prenhez.
Como fica a rotina diária?
| Momento | Tarefas |
|---|---|
| Manhã | Ordenha com higiene; água limpa; observar apetite e úbere |
| Dia | Pasto ou capineira; suplementação conforme a fase; sal mineral |
| Tarde | Segunda ordenha, se for o manejo; recolher ao aprisco |
| Semanal | Limpeza do aprisco e do pedilúvio; conferir cascos |
Ordenha é todos os dias, inclusive fins de semana — é a decisão mais importante antes de comprar uma cabra leiteira. Se a chácara não tem alguém fixo, planeje isso primeiro, como em chácara: como organizar uma pequena criação.
Posso vender o leite?
Para venda, o leite precisa passar por inspeção sanitária, com regras municipais, estaduais ou federais conforme o destino. Leite cru vendido sem inspeção é um risco à saúde de quem consome. Antes de vender, consulte a prefeitura e o órgão estadual de defesa agropecuária.
Como ordenhar com higiene?
O leite é um alimento sensível, e a qualidade começa na ordenha. Mesmo em criação pequena, para consumo da família, vale seguir uma rotina:
- Ordenhe sempre no mesmo horário e no mesmo lugar, limpo e tranquilo. A cabra acostumada à rotina solta o leite com mais facilidade.
- Lave as mãos e use roupa limpa.
- Limpe e seque as tetas antes de começar, com papel descartável ou pano individual.
- Descarte os primeiros jatos numa caneca de fundo escuro. Grumos, sangue ou leite aguado são sinais de mastite e pedem avaliação veterinária.
- Ordenhe com movimentos firmes e completos, sem puxar a teta.
- Coe e resfrie o leite logo depois da ordenha.
- Lave os utensílios com água e detergente após cada uso e deixe secar.
Por segurança, consuma o leite em casa só depois de fervido ou pasteurizado. E observe o úbere todos os dias: calor, dureza, dor ou mudança no leite são motivos para chamar o veterinário cedo, antes que a mastite se agrave.
Resumo
Parda Alpina, Toggenburg e Saanen são as raças mais leiteiras; a Anglo-Nubiana é a mais rústica, de dupla aptidão. Escolha pelo clima e pela estrutura disponível, compre de rebanho com histórico sanitário, monte um aprisco de piso ripado com 0,80 a 1,0 m² por animal e cuide do colostro nas primeiras seis horas de vida dos cabritos. E só compre a cabra quando tiver quem a ordenhe todos os dias.
Perguntas frequentes
Qual a melhor raça de cabra leiteira para iniciante?
Depende do clima e do manejo. Parda Alpina, Saanen e Toggenburg são as mais leiteiras, mas exigem alimentação e instalações melhores. A Anglo-Nubiana é mais rústica e de dupla aptidão. A Embrapa observa que a Saanen não é muito recomendada para algumas regiões do Nordeste, onde mestiças com raças locais costumam se adaptar melhor.
Quantos litros de leite uma cabra dá por dia?
Varia muito com raça, alimentação e fase da lactação. A Embrapa Meio-Norte cita que cabras Parda Alpina podem produzir em média 4 litros por dia em seus países de origem ou regiões adaptadas, com registros de até 8 litros nas primeiras semanas após o parto em algumas cabras.
Quanto tempo dura a gestação da cabra?
Em média 150 dias, podendo variar de 142 a 162 dias conforme idade, nutrição, raça e número de crias, segundo a Embrapa Meio-Norte. A recomendação é secar a cabra em lactação 60 dias antes do parto, para dar descanso ao úbere.
Quanto espaço uma cabra leiteira precisa no abrigo?
A Embrapa recomenda aprisco com área útil de 0,80 a 1,0 m² por animal, piso ripado com cerca de 1 cm entre as ripas e elevado de 0,80 a 1,0 m do solo, além de currais de manejo com 1,50 a 2,00 m² por caprino adulto.
O cabrito precisa mamar o colostro?
Precisa, e cedo. O colostro transfere imunidade da mãe, tem alto valor nutritivo e efeito laxativo. A Embrapa alerta que crias que não consomem o colostro nas primeiras seis horas de vida podem adoecer e morrer, e recomenda fornecê-lo até 72 horas, três vezes ao dia.
Dá para ter só uma cabra?
Cabras são animais gregários, que vivem naturalmente em grupo, e por isso muitos criadores preferem começar com pelo menos duas em vez de manter uma cabra isolada. Além disso, para a cabra produzir leite ela precisa parir, o que exige planejar a cobertura com um reprodutor ou inseminação.
Fontes
- Recomendações técnicas para criação de cabras leiteiras — Circular Técnica 25, Embrapa Meio-Norte (1999), de Medeiros, Girão, Girão e Leal: raças Parda Alpina, Toggenburg, Saanen e Anglo-Nubiana; gestação média de 150 dias (142 a 162); colostro nas primeiras seis horas, até 72 horas, 300 a 500 g/cria/dia; corte do umbigo a cerca de 2 cm e iodo a 10%; desmame entre 90 e 120 dias; aprisco com 0,80 a 1,0 m² por animal, piso ripado com 1 cm entre ripas, elevado de 0,80 a 1,0 m↗
- Produção, composição e processamento de leite de cabra no Brasil — Circular Técnica 122, Embrapa Gado de Leite, Juiz de Fora, agosto de 2020, de Idílio José Delgado Júnior, Kennya Beatriz Siqueira e Lorildo Aldo Stock (no mundo, considerando a média de 2006 a 2009, apenas 0,5% de todo o leite produzido é de cabra, segundo a FAO; a produção brasileira foi de 25 milhões de litros em 2017, contra 35 milhões em 2006, uma retração de cerca de 29%, enquanto o rebanho caprino cresceu 16% no período, chegando a 8,25 milhões de cabeças; os cinco maiores produtores em 2017 foram Paraíba, Bahia, Minas Gerais, Pernambuco e Rio Grande do Norte, concentrando 76% da produção; as raças mais utilizadas em Minas Gerais são Saanen, Alpina e Anglonubiana; o extrato seco do leite de cabra corresponde a 12,5%; teor médio de lactose de 4,8% no leite caprino contra 4,5% no bovino; proteína total geralmente menor que a do leite de vaca, 3,1% contra 3,4%; as micelas de caseína do leite de cabra são formadas principalmente por beta-caseína, que representa 53% do total de caseínas, contra menos de 40% no leite de vaca, e a fração alfa-s1-caseína é muito menor no leite caprino, 15% do total de caseína, contra 38% no leite de vaca; há estudos que relacionam o menor potencial alergênico do leite de cabra à menor quantidade de alfa-s1-caseína; a menor quantidade dessa fração faz com que o coágulo formado pela ação da renina seja menor e de granulação mais fina e macia; segundo a Anvisa, de 1999, o leite de cabra pode ser enquadrado como alimento funcional; o sabor e o aroma típicos podem ser responsáveis pela aceitação ou rejeição do produto pelos consumidores; o mercado no Norte e Nordeste se caracteriza pela informalidade, enquanto Sul e Sudeste têm cadeia mais organizada e comercialização formal)↗oficial
- Embrapa Caprinos e Ovinos — Sincronização e indução do estro em caprinos e ovinos↗oficial
Continue neste tema
Criação de animais em chácara: como organizar e começarCompostagem com esterco de animais: como fazerCriação de patos: como começar na chácaraIrrigação por gotejamento na horta da chácaraVer tudo sobre Chácara: pequena criação, horta e manejo integrado