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Piscicultura: criação de peixes de produção e nutrição

Qualidade da água na piscicultura: parâmetros e manejo

Resposta rápida

Os valores adequados para viveiros escavados são oxigênio dissolvido acima de 4 mg/L, transparência de 35 a 40 cm, pH de 6,5 a 8,0, alcalinidade acima de 20 mg/L, gás carbônico abaixo de 10 mg/L, amônia abaixo de 0,10 mg/L, nitrito abaixo de 0,03 mg/L e temperatura de 26 °C a 32 °C. O oxigênio é a variável mais importante e deve ser medido entre 6h e 8h da manhã, antes da primeira alimentação, porque o fitoplâncton só produz oxigênio com luz solar e o teor cai a noite inteira.

Neste artigo
  1. Os valores de referência
  2. Oxigênio: a variável mais importante
  3. A espécie muda a tolerância
  4. Transparência: o oxímetro dos pobres
  5. pH, alcalinidade e a regra da cal
  6. Amônia e nitrito: o custo do desperdício
  7. Ler o peixe antes de ler o aparelho
  8. Quando chamar o técnico

A água é onde o peixe respira, se alimenta, excreta e se locomove. É por isso que qualidade da água não é um capítulo do manejo — é o manejo.

Os valores de referência

Variável Como medir Valor adequado
Oxigênio dissolvido oxímetro ou kit acima de 4 mg/L
Transparência disco de Secchi 35 a 40 cm
pH kit ou pHmetro 6,5 a 8,0
Alcalinidade kit ou sonda acima de 20 mg/L
Gás carbônico kit abaixo de 10 mg/L
Amônia kit abaixo de 0,10 mg/L
Nitrito kit abaixo de 0,03 mg/L
Temperatura termômetro 26 °C a 32 °C

Oxigênio: a variável mais importante

A maior parte do oxigênio dissolvido é produzida pelo fitoplâncton — algas microscópicas que fazem fotossíntese a partir da luz solar e do gás carbônico.

Daí decorre tudo:

  • Só há produção de oxigênio durante o dia. À noite, há apenas consumo — pelos peixes e por todos os organismos do viveiro, inclusive o próprio fitoplâncton
  • O mínimo do dia é no início da manhã
  • Em dias nublados, a produção cai

Por isso a recomendação é medir entre 6h e 8h, preferencialmente antes da primeira alimentação. Medir à tarde dá o melhor número do dia — e o melhor número não é o que mata peixe.

Abaixo de 4 mg/L, os peixes ficam estressados, com prejuízo em alimentação, saúde e crescimento. Em situações extremas, ocorre mortalidade.

E há um agravante temporal: conforme os peixes crescem, o consumo aumenta com a biomassa. Problemas de oxigênio são comuns no fim do cultivo — quando o valor do lote está no máximo.

A espécie muda a tolerância

  • Pirarucu — respiração aérea obrigatória, com a bexiga natatória modificada em pulmão. Sobe à superfície para respirar
  • Tambaqui e demais “redondos” (pacu, caranha e híbridos) — dependem do oxigênio da água, mas expandem o lábio inferior para captar a água mais superficial, que é mais rica em oxigênio
  • Surubins (cachara, pintado e híbridos), piaus, curimatãs e tilápia — dependência completa

Aquele lábio inferior expandido no tambaqui não é característica da espécie em repouso: é sinal de que o oxigênio está baixo.

Transparência: o oxímetro dos pobres

A transparência indica quanta luz penetra na água, e serve para estimar indiretamente o plâncton — e, por consequência, o oxigênio.

A faixa desejável é 35 a 40 cm, medida com disco de Secchi.

Cor da água Causa Situação
Esverdeada moderada alimento natural (plâncton) desejável
Avermelhada solo em suspensão indesejável
Esbranquiçada solo em suspensão indesejável

Acima de 40 cm — água transparente demais. Favorece algas filamentosas e plantas aquáticas no fundo, o que traz baixa concentração de oxigênio e atrapalha biometria e despesca. A correção é adubação de manutenção.

Abaixo de 35 cm — água muito esverdeada. Resulta em baixa concentração de oxigênio, principalmente de manhã cedo, quando se observam os peixes boquejando na superfície. São as águas eutrofizadas, com risco de mortalidade. A correção é renovar a água ou reduzir a densidade.

Se a baixa transparência vem de solo em suspensão, e não de plâncton, aplique calcário a 2 t/ha para decantar as partículas e permitir o desenvolvimento do plâncton.

pH, alcalinidade e a regra da cal

Se o pH ficar abaixo de 6,5 ou a alcalinidade abaixo de 20 mg/L de carbonato de cálcio, faça calagem com calcário.

E aqui está a regra de segurança que mais se descumpre:

Durante o cultivo, pode-se aplicar calcário, mas jamais cal.

Cal virgem e cal hidratada são usadas apenas na desinfecção do viveiro vazio — 200 kg por 1.000 m², de 2 a 3 dias antes do abastecimento. Aplicadas com peixe na água, causam mortalidade.

A cal virgem também exige luvas, botas e máscara na aplicação: uso indevido e sem proteção causa queimaduras sérias.

Amônia e nitrito: o custo do desperdício

Os limites são apertados — amônia abaixo de 0,10 mg/L e nitrito abaixo de 0,03 mg/L.

A origem é conhecida: acúmulo de matéria orgânica da ração não consumida, somado aos resíduos metabólicos dos peixes. E o acúmulo é proporcional à densidade e ao aumento das taxas de arraçoamento.

Isso fecha um círculo que vale entender: num ciclo documentado pela Embrapa, a ração representou 88% do custo de produção. Ração desperdiçada não só é o maior item de custo jogado fora — ela ainda envenena a água que sustenta o lote. O desperdício cobra duas vezes.

Ler o peixe antes de ler o aparelho

Se o peixe comia normalmente e parou de comer na manhã seguinte:

  • Tempo nublado ou chuvoso — menor produção de oxigênio pelo fitoplâncton
  • Oxigênio muito baixo por excesso de adubação, com transparência abaixo de 35 cm
  • Alguém mexeu no viveiro de madrugada — avaliar furto
  • Enfermidade
  • Temperatura muito elevada

Por isso se alimenta sempre nos mesmos horários, evitando os mais quentes do dia.

E se o peixe vem respirar na superfície pela manhã, o oxigênio está muito baixo ao amanhecer: renove a água ou reduza a densidade antes que haja mortalidade.

Quando chamar o técnico

Se a mortalidade persistir mesmo com todos os parâmetros dentro da faixa, o problema não é de água — e diagnóstico de enfermidade de peixe exige técnico especializado, com avaliação presencial do lote.

As referências desta página servem para você monitorar e conversar com quem assiste a sua produção; não substituem essa assistência.

O dimensionamento do viveiro está em tanque para piscicultura, e a densidade e o cálculo de povoamento, em piscicultura.

Perguntas frequentes

Qual o nível de oxigênio ideal para os peixes?

Acima de 4 mg/L. Abaixo disso os peixes ficam estressados, e alimentação, saúde e crescimento são prejudicados; em situações extremas há mortalidade. Meça entre 6h e 8h da manhã, antes da primeira alimentação, porque é o período do dia com menor concentração.

Por que medir o oxigênio de manhã cedo?

Porque a maior parte do oxigênio dissolvido é produzida pelo fitoplâncton por fotossíntese, e isso só ocorre com luz solar. Durante a noite há apenas consumo — pelos peixes e por todos os organismos do viveiro. O mínimo do dia acontece no início da manhã.

O que significa a água do viveiro estar muito verde?

Transparência abaixo de 35 cm, com aparência muito esverdeada, indica excesso de plâncton e pode resultar em baixa concentração de oxigênio, principalmente de manhã cedo. É quando se observam os peixes boquejando na superfície. Essas águas são chamadas de eutrofizadas e pode haver mortalidade.

Posso usar cal para corrigir a água durante o cultivo?

Não. Cal virgem e cal hidratada não devem ser usadas durante o cultivo, porque podem causar a mortalidade dos peixes. Durante o cultivo pode-se aplicar calcário, jamais cal. A cal é usada apenas na desinfecção do viveiro vazio, dois a três dias antes do abastecimento.

Fontes

Cada afirmação que depende de norma, número ou procedimento tem origem verificável.

  1. Manual de piscicultura familiar em viveiros escavados — Embrapa Pesca e Aquicultura, Brasília, 2015, de Adriana Ferreira Lima e outros (vazão recomendada de 10 a 20 L/s por hectare de lâmina d'água, podendo ser menor em viveiros bem construídos; terreno plano ou com declividade de até 2%, evitando acima de 4%; solo de textura média, com 15% a 35% de argila, identificável em campo pelo teste da letra S, com compactação a cada 20 cm de deposição e remoção do material vegetal de 10 a 30 cm abaixo do nível do solo; viveiro retangular, com profundidade de cerca de 1,20 m na parte rasa e de 1,5 a 1,7 m na mais funda, e declividade de fundo de 0,5% a 2% no sentido da entrada para a saída; talude de 3:1 na borda interna e 2:1 na externa, com crista de 2 a 3 m ou 5 m para passagem de veículos; desinfecção com cal virgem ou hidratada a 200 kg por 1.000 m² dois a três dias antes do enchimento, sendo vedado o uso de cal durante o cultivo; calagem com calcário quando o pH for menor que 6,5 ou a alcalinidade inferior a 20 mg/L; adubação inicial e de manutenção com esterco de aves, suíno ou bovino ou adubo químico; valores adequados de qualidade da água — oxigênio dissolvido acima de 4 mg/L, transparência de 35 a 40 cm medida com disco de Secchi, pH de 6,5 a 8,0, alcalinidade acima de 20 mg/L, gás carbônico abaixo de 10 mg/L, amônia abaixo de 0,10 mg/L, nitrito abaixo de 0,03 mg/L e temperatura de 26 °C a 32 °C; oxigênio deve ser medido entre 6h e 8h, antes da primeira alimentação, porque o menor teor do dia ocorre no início da manhã; densidade de engorda permitindo produção final de 8.000 a 10.000 kg/ha em viveiros escavados, de 6.000 a 8.000 kg/ha em barragens e represas, cerca de 80 kg/m³ em tanque-rede para espécies nativas e de 100 a 150 kg/m³ para tilápia; mortalidade comum de até 10% ao final da alevinagem; em exemplo documentado de ciclo em viveiro de 215 m², a ração representou 88% do custo de produção)oficial

    Embrapa Pesca e Aquicultura · consultado em 05/08/2026

  2. Embrapa Agrossilvipastoril · consultado em 05/08/2026

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