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Piscicultura: criação de peixes de produção e nutrição

Resposta rápida

Na piscicultura, o oxigênio dissolvido é o que limita o crescimento — e o primeiro sinal de excesso de peixes é a queda no crescimento, não a mortalidade. Ele deve ficar acima de 4 mg/L e ser medido entre 6h e 8h, quando está no mínimo do dia. A densidade se calcula por biomassa: 8.000 a 10.000 kg/ha em viveiro escavado, cerca de 80 kg/m³ em tanque-rede para nativas e 100 a 150 kg/m³ para tilápia, com aeração de 1,5 HP por 2.500 m². Em ciclo documentado pela Embrapa, a ração respondeu por 88% do custo de produção.

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O oxigênio manda em tudo

Se você guardar uma só informação desta página, guarde esta: o oxigênio dissolvido é o que limita o crescimento. Não é a ração, não é a genética do alevino, não é a espécie.

A não observância dos limites de povoamento leva à competição por oxigênio — e o primeiro sinal de que há peixe demais é a diminuição sensível no crescimento, não a mortalidade. Quando morre peixe, o problema já vinha de longe.

Isso reorganiza as decisões: densidade, adubação, alimentação e aeração são todas variáveis da mesma conta.

Variável Valor adequado
Oxigênio dissolvido acima de 4 mg/L
Transparência (disco de Secchi) 35 a 40 cm
pH 6,5 a 8,0
Alcalinidade acima de 20 mg/L
Gás carbônico abaixo de 10 mg/L
Amônia abaixo de 0,10 mg/L
Nitrito abaixo de 0,03 mg/L
Temperatura 26 °C a 32 °C

Meça o oxigênio entre 6h e 8h da manhã, antes da primeira alimentação. O motivo é direto: o fitoplâncton só produz oxigênio com luz solar, então o teor cai a noite inteira e chega ao mínimo no amanhecer.

E há um agravante de calendário: conforme os peixes crescem, o consumo de oxigênio aumenta com a biomassa. É no fim do ciclo que os problemas aparecem — exatamente quando o prejuízo é maior.

Densidade se mede em quilos, não em peixes

Densidade de estocagem se expressa em biomassa por área (kg/ha) em viveiro escavado e por volume (kg/m³) em tanque-rede. Contar peixes sem pensar no peso final é o erro de partida.

Estrutura Produção final de referência
Viveiro escavado 8.000 a 10.000 kg/ha
Barragem ou represa 6.000 a 8.000 kg/ha
Tanque-rede, espécies nativas cerca de 80 kg/m³
Tanque-rede, tilápia 100 a 150 kg/m³

Em sistemas extensivos, a produtividade fica em torno de 2.000 kg/ha.

Densidade maior exige suporte de oxigênio. A referência de aeração é de 1,5 HP para cada 2.500 m² de lâmina d’água. Não é opcional: é o que sustenta a densidade escolhida.

O efeito disso é mensurável. Em sistemas documentados de tambaqui em viveiro escavado, com 300 dias de engorda:

  • Com aeração de emergência: peso final de 1,8 kg e 7,2 t/ha
  • Com aeração diária obrigatória: peso final de 2,62 kg e 18,0 t/ha

Mais que o dobro da produtividade — pela aeração, não pela ração.

Como calcular quantos alevinos comprar

O cálculo parte da biomassa final e do peso final pretendidos, e não do número de peixes:

  1. Número de peixes na engorda = biomassa final ÷ peso final. Ex.: 7.500 kg/ha ÷ 1,5 kg = 5.000 peixes/ha
  2. Acrescente a mortalidade de cada fase, de trás para frente. Com 4% na alevinagem: 5.000 + 4% = 5.200 alevinos a comprar

A mortalidade funciona em efeito cascata: perda na engorda muda o que a alevinagem precisa produzir, que muda quantos alevinos comprar. Ao final da alevinagem, é comum uma mortalidade de até 10%.

A conta que decide se compensa

Num ciclo documentado pela Embrapa em viveiro pequeno, a ração representou 88% do custo de produção.

Esse número reorganiza a prioridade de quem está começando. Economizar na obra do viveiro ou no alevino mexe pouco no resultado; desperdiçar ração mexe em quase tudo. Manejo alimentar e conversão alimentar não são refinamento técnico — são o negócio.

E vale a decorrência: ração desperdiçada não some. Ela vira matéria orgânica no fundo, que consome oxigênio e eleva a amônia. O desperdício cobra duas vezes.

Escolher a espécie

Além do mercado local e da disponibilidade de alevinos, um critério fisiológico separa as espécies:

  • Pirarucu — respiração aérea obrigatória; a bexiga natatória é modificada em pulmão. Por isso suporta densidades maiores sem competir pelo oxigênio da água
  • Tambaqui e demais “redondos” — dependem do oxigênio dissolvido, mas têm adaptação para suportar baixas concentrações: expandem o lábio inferior para captar a água superficial, mais rica em oxigênio
  • Surubins, piaus, curimatãs e tilápia — dependência completa do oxigênio dissolvido

O peixe “boquejando” na superfície pela manhã é sinal de oxigênio baixo ao amanhecer — a resposta é renovar a água ou reduzir a densidade.

Peixes ornamentais

A produção de peixes ornamentais é aquicultura, e compartilha o essencial: qualidade da água nos mesmos parâmetros, controle de densidade, sanidade dos lotes e regularização da atividade.

O que muda é a lógica econômica. Aqui não se vende quilo — vende-se animal vivo, por unidade, com padrão de cor, forma e uniformidade. Isso desloca o gargalo do custo de ração para a taxa de sobrevivência, o padrão do lote e a logística de transporte vivo.

Duas consequências práticas: a mortalidade no transporte deixa de ser detalhe e vira variável central, e o canal de venda precisa existir antes da produção, porque não há mercado spot como há para peixe de corte.

Ler o comportamento do peixe

É o instrumento mais barato de monitoramento. Se o peixe comia normalmente e parou:

  • Tempo nublado ou chuvoso, com menor produção de oxigênio pelo fitoplâncton
  • Oxigênio muito baixo por excesso de adubação, com transparência abaixo de 35 cm
  • Alguém manuseou os peixes ou o viveiro de madrugada — avaliar furto
  • Enfermidade
  • Temperatura da água muito elevada

Por isso se recomenda alimentar sempre nos mesmos horários, evitando os mais quentes do dia.

Mortalidade que persiste mesmo com a água dentro dos parâmetros é caso para técnico especializado — diagnóstico de doença de peixe não se faz por foto na internet.

Por onde começar

  1. Confirme a água — volume, qualidade e constância ao longo do ano.
  2. Defina espécie e peso final de acordo com o mercado que você tem.
  3. Calcule a densidade pela biomassa, e a aeração pela densidade.
  4. Dimensione o viveiro — construção e talude estão em tanque para piscicultura.
  5. Trate a ração como o centro do custo, com horário fixo e registro de consumo.
  6. Regularize a atividade junto aos órgãos competentes antes de investir em obra.

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