Neste artigo
- Bouba e coriza são a mesma doença?
- O que é a bouba aviária e como reconhecer?
- Como a bouba se espalha?
- O que é a coriza infecciosa e como reconhecer?
- Como a coriza se espalha?
- Como prevenir as duas doenças?
- E a vacinação?
- Bouba e coriza têm tratamento?
- O que fazer ao ver aves doentes?
- E as outras doenças do quintal?
- Quarentena: como receber aves novas sem trazer doença?
- Como montar uma rotina de biosseguridade no quintal?
- Resumo
Crista com caroços escuros, galinha espirrando, olho inchado e fechado, postura despencando de um dia para o outro: são cenas comuns em galinheiros de quintal. Por trás delas, duas doenças aparecem com frequência — a bouba aviária e a coriza infecciosa. Elas não são a mesma coisa, não se espalham do mesmo jeito e não se previnem exatamente da mesma forma.
Este texto ajuda a reconhecer os sinais e organizar a prevenção. Ele não substitui o médico-veterinário: diagnóstico, vacina e qualquer medicamento dependem de avaliação profissional.
Bouba e coriza são a mesma doença?
Não. São doenças diferentes, com agentes diferentes:
| Bouba aviária | Coriza infecciosa | |
|---|---|---|
| Agente | Vírus (Avipoxvirus) | Bactéria (Avibacterium paragallinarum) |
| Como entra | Feridas na pele; mosquitos | Contato, gotículas, água contaminada |
| Sinal típico | Nódulos e crostas na crista e na face | Secreção nasal, espirros, face inchada |
| Incubação | 4 a 10 dias | 1 a 3 dias |
| Duração no lote | 2 a 8 semanas | 2 a 3 semanas |
| Passa para pessoas? | Não | Não |
Os dados de agente, transmissão, incubação e duração vêm do Merck Veterinary Manual.
O que é a bouba aviária e como reconhecer?
A bouba — chamada em inglês de fowlpox — é causada por um vírus do gênero Avipoxvirus. O Merck Veterinary Manual descreve duas formas:
Forma cutânea (seca). Nódulos na pele sem penas — crista, barbela, face, pálpebras — que evoluem para crostas grossas e escuras. Lesões perto das narinas ou das pálpebras podem causar secreção e fechar o olho.
Forma diftérica (úmida). Lesões nas mucosas da boca, faringe, laringe ou traqueia. As da boca atrapalham a alimentação; as da traqueia dificultam a respiração.
A forma cutânea sozinha costuma ter mortalidade baixa ou moderada. A diftérica, com cepas virulentas, pode ter mortalidade alta. Em ambas, lotes de postura com infecção extensa produzem menos ovos.
Como a bouba se espalha?
Segundo o Merck Veterinary Manual:
- O vírus entra principalmente por feridas e arranhões na pele.
- Crostas que caem das aves em recuperação liberam vírus no ambiente.
- Mosquitos e outros insetos picadores carregam o vírus de uma ave para outra — e a disseminação no lote é rápida quando há muitos mosquitos.
Por isso a bouba costuma aparecer mais em épocas e locais com mosquito: água parada perto do galinheiro é um convite.
O que é a coriza infecciosa e como reconhecer?
A coriza é uma doença respiratória causada pela bactéria Avibacterium paragallinarum. Os sinais descritos pelo Merck Veterinary Manual:
- Ave apática, com secreção nasal aquosa e, às vezes, espirros.
- Inchaço da face, que nos casos graves pode fechar os olhos.
- Em aves adultas, especialmente machos, inchaço das barbelas e da região entre as mandíbulas.
- Diarreia e queda no consumo de ração e água na fase aguda.
O impacto na postura é grande: a doença pode atrasar o início da postura em frangas e reduzir muito a produção de galinhas em postura.
Como a coriza se espalha?
Por contato direto ou indireto, gotículas no ar e água de bebida contaminada. A coriza não passa pelo ovo.
O ponto mais traiçoeiro: aves cronicamente doentes e portadoras aparentemente sadias mantêm a bactéria no plantel. É assim que uma galinha comprada numa feira, com aparência normal, introduz a doença num galinheiro que nunca tinha tido problema.
Lotes com aves de várias idades convivendo juntas, como é comum em quintal, tendem a manter surtos recorrentes, segundo a mesma fonte.
Como prevenir as duas doenças?
A Embrapa Meio-Norte é direta: biosseguridade é o melhor método para minimizar a ocorrência de doenças nas aves. As medidas recomendadas no folder de manejo sanitário de galinha caipira:
- Controlar o fluxo de pessoas e equipamentos dentro da criação e limitar visitantes.
- Usar calçados e roupas que não foram usados em outras criações.
- Não usar equipamentos de terceiros no galinheiro.
- Separar aves de mesma idade.
- Impedir a entrada de aves silvestres, roedores, répteis e predadores.
- Descartar rapidamente aves mortas, enterrando ou queimando.
- Guardar ração e ovos protegidos de roedores e fazer controle de ratos.
- Limpar e higienizar diariamente comedouros e bebedouros.
- Trocar a cama úmida, compactada ou com excesso de fezes.
- Usar vazio sanitário: na saída de um lote, deixar a instalação limpa, desinfetada e sem aves por um período.
- Controlar moscas e impedir contato das aves com esgoto ou dejetos de outros animais.
Para a bouba, some a isso o controle de mosquitos: elimine água parada, potes, pneus e calhas entupidas perto do galinheiro.
Para a coriza, o Merck Veterinary Manual destaca o manejo de lote único — aves da mesma idade entram e saem juntas, com limpeza e desinfecção antes do próximo lote — e a reposição apenas com aves de plantéis limpos.
E a vacinação?
A Embrapa Meio-Norte trata a vacinação como prática de biosseguridade e publica um calendário sugerido para galinha caipira:
| Doença | Idade | Via |
|---|---|---|
| Marek | 1º dia de vida | Subcutânea |
| Newcastle | 7, 21 e 35 dias; repetir aos 90 dias para postura | Ocular |
| Bouba aviária | 35 dias | Membrana da asa ou coxa |
| Coriza | 35 a 40 dias | Intramuscular |
| Bronquite infecciosa | Só onde a doença ocorre | Ocular |
| Gumboro | Aves jovens | Ocular |
A própria Embrapa ressalta que o calendário varia conforme a incidência de doenças na região e deve ser elaborado pelo médico-veterinário.
Dois detalhes técnicos do Merck Veterinary Manual ajudam a entender por que o profissional é necessário:
- Bouba: cerca de uma semana após a vacina, examina-se o local da aplicação para ver se houve “pega” (inchaço e crosta). Sem pega, a vacina pode ter falhado e pode ser preciso revacinar.
- Coriza: as vacinas (bacterinas) precisam conter os sorovares presentes na região, porque um não protege contra o outro.
Bouba e coriza têm tratamento?
Bouba: não há tratamento específico eficaz para as aves infectadas, segundo o Merck Veterinary Manual. O cuidado é de suporte e a prevenção pela vacinação é o que funciona.
Coriza: há tratamento com antimicrobianos, mas o Merck Veterinary Manual registra resistência e recaídas quando a medicação é suspensa, e o uso está sujeito à regulação de cada país. Escolha do produto, dose e período de carência de ovos e carne exigem prescrição veterinária.
Evite remédios caseiros na água sem orientação: além de não resolver, podem mascarar a doença e atrasar o diagnóstico.
O que fazer ao ver aves doentes?
- Separe as aves com sinais em local isolado, com água e ração próprios.
- Não traga aves novas e não venda ou doe aves do lote até ter diagnóstico.
- Anote quantas aves estão afetadas, desde quando e como está a postura.
- Chame o médico-veterinário. Mortalidade alta e súbita em aves deve ser comunicada ao serviço veterinário oficial do seu estado (a agência de defesa agropecuária, como a ADAPAR no Paraná ou o IMA em Minas Gerais), porque pode indicar doença de notificação obrigatória, como influenza aviária ou doença de Newcastle. Não é preciso ter certeza do diagnóstico: o IMA, por exemplo, orienta que qualquer cidadão pode comunicar a suspeita, inclusive pelo sistema eletrônico Sisbravet, do Ministério da Agricultura.
- Reforce a limpeza de bebedouros, comedouros e cama.
E as outras doenças do quintal?
Bouba e coriza não estão sozinhas. A Embrapa também chama a atenção para piolhos e ácaros, que se alimentam de sangue e causam anemia e queda de desempenho, e para verminoses, que causam anemia, diarreia, desenvolvimento abaixo do esperado e até mortalidade. Cama limpa, ninhos higienizados e controle de aves silvestres ajudam contra ambos.
Galinheiro bem construído é parte da prevenção: piso drenado, tela contra aves silvestres e ventilação estão em como construir um galinheiro simples, e a rotina de limpeza está no guia prático do galinheiro e da chocadeira.
Quarentena: como receber aves novas sem trazer doença?
A porta de entrada mais comum da coriza num galinheiro é uma ave nova aparentemente sadia. Uma quarentena simples reduz muito o risco:
- Separe as aves recém-chegadas em local afastado do galinheiro principal, sem contato direto.
- Use bebedouro, comedouro e cama próprios para elas.
- Cuide delas por último na rotina, depois das aves antigas, ou troque de calçado.
- Observe por algumas semanas: secreção nasal, espirros, face inchada, crostas na crista, diarreia, apatia.
- Vacine conforme orientação do médico-veterinário antes de juntar os lotes.
- Só misture se nenhuma ave apresentar sinais no período.
O tempo exato de quarentena e o que fazer com aves que adoecem nesse período devem ser combinados com o médico-veterinário. A mesma lógica vale para galos emprestados, aves de exposição e aves que voltam de feiras.
Como montar uma rotina de biosseguridade no quintal?
Biosseguridade é o conjunto de cuidados que impede a doença de entrar no plantel e de se espalhar dentro dele. Em criação pequena, ela cabe em hábitos simples:
- Um calçado só para o galinheiro, ou pedilúvio na entrada, para não trazer sujeira de outras criações.
- Visitas com cuidado. Evite que pessoas que lidam com outras aves entrem no galinheiro sem trocar roupa e calçado.
- Bebedouros e comedouros limpos, lavados com frequência, porque água suja é uma das principais vias de contágio da coriza.
- Tela contra aves silvestres e roedores, que podem trazer doenças e parasitas.
- Separe aves por idade sempre que possível; frangas jovens são mais sensíveis.
- Destino correto das aves mortas: enterrar longe de fontes de água ou seguir a orientação do serviço local, nunca jogar no mato ou dar a outros animais.
- Caderno de registro com vacinações, compras de aves e episódios de doença, que ajuda o veterinário a chegar ao diagnóstico.
Nenhuma dessas medidas substitui a vacinação indicada para a sua região, mas elas reduzem a pressão de doença e tornam o plantel mais fácil de manter saudável.
Resumo
Bouba é viral, aparece como caroços e crostas na crista ou placas na garganta, espalha-se por feridas e mosquitos e não tem tratamento específico. Coriza é bacteriana, causa secreção nasal e face inchada, espalha-se por contato e água e se mantém em aves portadoras. Para as duas, a base é a mesma: biosseguridade, cuidado com aves novas, controle de mosquitos e um calendário de vacinação feito pelo médico-veterinário para a sua região.
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Bouba de galinha passa para pessoas?
Não. Segundo o Merck Veterinary Manual, os vírus da bouba aviária se multiplicam apenas em aves, e não em mamíferos. Ainda assim, use luvas ao manusear aves doentes e lave as mãos, porque outras doenças de aves podem afetar pessoas.
Bouba tem cura?
Não existe tratamento específico eficaz para as aves infectadas, de acordo com o Merck Veterinary Manual. Na forma de pele, muitas aves se recuperam em algumas semanas; na forma da boca e garganta, a mortalidade pode ser alta. Por isso a prevenção pela vacinação é o centro do controle.
Como saber se é coriza ou só um resfriado?
Galinha não pega resfriado como o humano. Secreção nasal, espirros e inchaço da face abaixo dos olhos, principalmente com queda de postura e várias aves afetadas, sugerem coriza ou outra doença respiratória. Só exame veterinário e laboratorial confirma qual é.
Galinha que teve coriza pode voltar ao plantel?
Com cuidado. O Merck Veterinary Manual aponta aves cronicamente doentes e portadoras aparentemente sadias como reservatório da coriza. Por isso o médico-veterinário pode recomendar descarte ou separação permanente, e a reposição deve vir de plantéis limpos.
Com que idade vacinar contra bouba e coriza?
No calendário sugerido pela Embrapa Meio-Norte para galinha caipira, a bouba aparece aos 35 dias, na membrana da asa ou na coxa, e a coriza de 35 a 40 dias, intramuscular. A própria Embrapa ressalta que o calendário varia por região e deve ser definido pelo médico-veterinário.
Posso tratar coriza com antibiótico por conta própria?
Não é recomendado. A escolha do antimicrobiano, a dose, o período de carência dos ovos e da carne e o risco de resistência exigem prescrição de médico-veterinário. O Merck Veterinary Manual registra resistência a antimicrobianos e recaídas quando a medicação é suspensa.
Fontes
- Galinha caipira: manejo sanitário — folder da Embrapa Meio-Norte, 2ª edição (2018): biosseguridade como melhor método para minimizar doenças; calendário de vacinação sugerido (Marek no 1º dia, subcutânea; Newcastle aos 7, 21 e 35 dias, ocular, repetindo aos 90 dias para postura; bouba aviária aos 35 dias, na membrana da asa ou coxa; coriza de 35 a 40 dias, intramuscular; bronquite infecciosa só onde ocorre; Gumboro em aves jovens), com a ressalva de que o calendário é específico de cada situação e deve ser elaborado pelo médico-veterinário↗
- Sistema Alternativo de Criação de Aves Caipiras (SACAC): núcleo de multiplicação de galinhas — Documentos 174, Embrapa Meio-Norte (2008): galinha caipira ou naturalizada como ave submetida a seleção natural, rústica e prolífica; cada fêmea põe de 10 a 14 ovos por ciclo, com postura anual esperada em torno de 156 ovos; 7 ciclos anuais com incubação natural (47 dias) e 13 com artificial (26 dias); níveis nutricionais por fase (reprodução com 16,0% de proteína e 4,00% de cálcio)↗
- Fowlpox in Chickens and Turkeys — Merck Veterinary Manual (D. N. Tripathy, atualizado em set/2024): vírus do gênero Avipoxvirus; transmissão por contato através de feridas na pele, crostas que se desprendem e mosquitos como vetores mecânicos; forma cutânea (nódulos e crostas na pele sem penas) e diftérica (lesões na boca, faringe e traqueia); incubação de 4 a 10 dias e curso de 2 a 8 semanas no lote; queda de postura; sem tratamento específico eficaz, prevenção por vacinação; não infecta mamíferos↗
Ver todas as fontes (5)
- Infectious Coryza — Merck Veterinary Manual (E. Soriano-Vargas, atualizado em set/2024): causada por Avibacterium paragallinarum; transmissão por contato direto ou indireto, gotículas e água de bebida contaminada, não pelo ovo; aves cronicamente doentes e portadoras sadias são reservatório; incubação de 1 a 3 dias e curso de 2 a 3 semanas; secreção nasal, espirros, inchaço da face e das barbelas; queda severa de postura; prevenção por lote único (todos dentro, todos fora), reposição com aves de plantéis limpos e biosseguridade; bacterinas precisam conter os sorovares presentes↗
- IMA-MG — Notificar suspeita ou ocorrência de doenças de notificação obrigatória (Sisbravet, notificação imediata)↗oficial
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