Veterinário Raiz
Brasil

Confinamento de gado: como montar e operar

Resposta rápida

Um confinamento na época seca requer de 10 a 12 m² por cabeça, com piso de chão batido e declividade mínima de 3% — número que sobe até 50 m² por cabeça e 8% de declividade em regiões chuvosas, por causa da lama. O cocho precisa de 70 cm por animal, para que todos comam ao mesmo tempo, e os bebedouros de 50 litros por cabeça/dia. O item mais crítico não é obra: é a adaptação gradual à dieta, que leva de 15 a 30 dias e cuja ausência causa acidose e timpanismo.

Gado Nelore em confinamento come no cocho e bebe água enquanto um tratador observa o lote.
Espaço, cocho, água e adaptação da dieta sustentam o desempenho do gado confinado.
Neste artigo
  1. Escolha do local
  2. O dimensionamento, número a número
  3. O que mais importa não é obra
  4. A rotina que sustenta o resultado
  5. O sal mineralizado não sai de cena
  6. Lotes homogêneos
  7. Antes de investir

Confinar é uma decisão de investimento com prazo curto e saída única. Vale montar a conta antes de levantar a primeira cerca.

Escolha do local

O grosso do custo é alimentação. Por isso a Embrapa Gado de Corte recomenda instalar o confinamento onde o alimento seja disponível com fartura, especialmente para quem depende de comprar.

Outros critérios de localização:

  • Afastado de rodovias e de grande movimentação — evita contaminação, furto e estresse
  • Água farta e limpa e energia elétrica disponíveis
  • Longe de córregos e rios, que podem ser contaminados por dejetos
  • Evitar áreas com ventos canalizados, pelo odor, se houver vila ou cidade próxima
  • Evitar áreas muito planas e declives em excesso

E um item que muita gente descobre tarde: o projeto deve prever, desde o início, estruturas de coleta de fezes e urina — canais de drenagem, tanques de sedimentação — e de conservação de solo e água.

Leia também: balança para gado e gado Girolando. Para fazer a conta com os seus números, use a calculadora de arroba do boi.

O dimensionamento, número a número

Item Referência
Área/cabeça na seca 10 a 12 m²
Área/cabeça em região chuvosa até 50 m²
Declividade do piso mínimo 3%, até 8% se chuvoso
Espaço de cocho 70 cm/cabeça
Altura do cocho máximo 40 cm do solo
Cerca divisória mínimo 1,8 m
Água 50 L/cabeça/dia
Cocho de sal 4 m para 100 animais

Em região chuvosa, além da área maior, cabem calçadas de 1,8 a 3,0 m de largura ao longo dos cochos — cascalho ou concreto — ou telhado sobre eles, com pé-direito de 3,0 metros.

A conta do cocho é a que mais se erra. 70 cm por cabeça, e num lote de 90 animais isso dá 63 metros. Não é para caber a comida: é para todos comerem ao mesmo tempo. Cocho curto cria dominância, e os animais dominados ficam para trás no lote inteiro.

O que mais importa não é obra

A adaptação gradual à dieta leva de 15 a 30 dias. Os alimentos novos entram em proporções crescentes até a ração final. Animais que vinham de pasto exclusivo são os mais sensíveis.

Sem isso, dois quadros aparecem:

Acidose. Aumento do ácido lático no rúmen, por consumo excessivo de carboidratos rapidamente fermentáveis. O animal perde o apetite e, com a evolução, pode morrer. Além da falta de adaptação, pode ser desencadeada por aumento súbito no consumo de grãos — inclusive por mudança climática —, silagem de baixa qualidade ou água contaminada.

Timpanismo. Ligado a certos alimentos, à frequência inadequada de alimentação ou à alternância entre super e subfornecimento de concentrado, sobretudo moído fino.

Há ainda a intoxicação por ureia, quando ela é mal utilizada: precisa vir acompanhada de carboidratos prontamente fermentáveis, balanceada e introduzida gradualmente.

Todos são quadros clínicos com evolução rápida. Prevenção é manejo — a conduta diante do animal doente é do veterinário, e a estrutura de atendimento precisa estar definida antes do primeiro lote entrar.

A rotina que sustenta o resultado

  • Duas ou três refeições diárias. O mínimo é duas, bem espaçadas — por exemplo, 8h e 17h
  • Horário fixo durante todo o confinamento
  • Volumoso à vontade, concentrado controlado nas refeições
  • Cochos sempre com alimento, para evitar distúrbio digestivo e estresse
  • Limpeza diária antes da primeira refeição
  • Nada mofado ou rancificado — compromete o lote e adoece o tratador
  • Alimentos não usuais: máximo de 20% da ração total

O sal mineralizado não sai de cena

Mesmo com dieta completa no cocho, o sal mineral continua tendo cocho próprio, longe dos bebedouros.

Vale um dado que contraria a intuição de quem só suplementa na seca: segundo a Embrapa Gado de Corte, as respostas da suplementação mineral são geralmente mais dramáticas durante a estação chuvosa, quando a forrageira está em crescimento e o animal tem proteína e energia suficientes para converter mineral em ganho. Na seca, animal que apenas mantém peso pode não responder ao fósforo suplementar, porque proteína e energia são as deficiências mais limitantes naquele momento.

Lotes homogêneos

Cada curral deve ter um grupo homogêneo — mesmo sexo, grau de sangue, estrutura corporal e grau de acabamento. Isso favorece o desempenho, permite ração apropriada àquele lote e melhora o controle da produção.

E define o peso de saída: animais de estrutura média terminam entre 450 e 520 kg nos machos e 400 e 475 kg nas fêmeas. Passar disso gera carcaça com excesso de gordura, que deprecia tanto quanto gordura de menos.

Antes de investir

  1. Garanta o alimento — é o maior custo e o principal critério de localização.
  2. Defina a categoria e o peso de abate alvo.
  3. Dimensione com a declividade certa para o seu regime de chuva, não com o número da seca.
  4. Coloque a adaptação no cronograma, com dieta de transição planejada.
  5. Instalação simples. Sofisticação não traz retorno e pode comprometer a rentabilidade.
  6. Monte o controle por lote: entrada, pesagens intermediárias, consumo, saída.

O panorama do sistema está em gado de corte, e a formulação da dieta, em nutrição de bovinos.

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Perguntas frequentes

Quantos metros quadrados por cabeça no confinamento?

De 10 a 12 m² por cabeça em confinamento conduzido na época seca, com declividade mínima de 3%. Em regiões mais chuvosas, sujeitas à formação de lama nos currais, a área sobe até 50 m² por cabeça e a declividade até 8%. A lama é muito prejudicial ao desempenho dos animais.

Quantos metros de cocho preciso?

70 cm por cabeça, para que todos os animais consigam se alimentar ao mesmo tempo. Um lote de 90 animais precisa de 63 metros de cocho. O cocho de sal mineralizado é separado — 4 metros para cada 100 animais, colocado longe dos bebedouros.

Quanto tempo leva a adaptação à dieta?

De 15 a 30 dias, dependendo da dieta, até que o animal se adapte e o consumo se estabilize. Os alimentos novos entram em proporções crescentes até a ração final. Pular essa etapa é a principal causa de acidose e timpanismo em confinamento.

Posso soltar o gado de volta no pasto depois?

Não é recomendável que animais confinados retornem às pastagens. O confinamento é usado na terminação, e os animais devem sair em condições de abate. Por isso o planejamento de venda precisa existir antes da entrada do primeiro lote.

Fontes

  1. Engorda de bovinos em confinamento (aspectos gerais) — Esther Guimarães Cardoso, Embrapa Centro Nacional de Pesquisa de Gado de Corte, Campo Grande (MS), 1996 (confinamento definido como lotes encerrados em currais de área restrita com alimento e água fornecidos em cocho, usado sobretudo na terminação; no Brasil conduzido na época seca, na entressafra; área de 10 a 12 m²/cabeça na seca com piso de chão batido e declividade mínima de 3%, chegando a 50 m²/cabeça e 8% de declividade em regiões chuvosas por causa da lama; cochos com 70 cm disponíveis por cabeça, altura máxima de 40 cm do solo, cercas divisórias de no mínimo 1,8 m; bebedouros para 50 litros de água por cabeça/dia; 4 metros de cocho de sal mineralizado para 100 animais, longe dos bebedouros; ração servida em duas ou três porções diárias em horário fixo, com volumoso à vontade e concentrado controlado; adaptação gradual à dieta exigindo de 15 a 30 dias até o consumo estabilizar; acidose e timpanismo como distúrbios ligados à falta de adaptação; limite de 20% da ração total para alimentos não usuais; estrutura corporal média definida como peso de abate de 450 a 520 kg em machos e 400 a 475 kg em fêmeas)↗oficial
  2. Suplementação mineral de bovinos na estação seca — Maria Luiza Franceschi Nicodemo, Embrapa Gado de Corte, Comunicado Técnico 66, Campo Grande (MS), novembro de 2001 (minerais deficientes nos Cerrados do Brasil Central: fósforo, sódio, cobre, cobalto, iodo e zinco, com indicações de deficiência de selênio e enxofre em algumas regiões e de cálcio e magnésio em Roraima e no Pantanal Sul-Mato-Grossense; as respostas da suplementação mineral são geralmente mais dramáticas durante a estação chuvosa, quando a forrageira está em crescimento e há proteína e energia suficientes para sustentar ganho; na seca, a resposta ao fósforo suplementar em animais que apenas mantêm ou perdem peso pode ser pequena ou inexistente, porque proteína e energia são as deficiências mais limitantes; categorias mais exigentes são fêmeas em produção, sobretudo novilhas, e animais jovens de alto ganho; exigência de fósforo de 4,7 g/dia em mantença subindo a 16,5 g/dia com ganho de 1 kg/dia; suplementação preferencialmente em cochos cobertos, protegidos de vento e chuva, regularmente abastecidos e acessíveis também aos bezerros; bovinos acumulam reservas de cobre, selênio, cálcio e fósforo, mas manganês, zinco, sódio e magnésio precisam de fornecimento constante, inclusive na seca; relação N:S da dieta em torno de 12:1, com excesso de enxofre ligado a menor disponibilidade de cobre e selênio e a casos de polioencefalomalacia)↗oficial

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