Tema
Ração, sal mineral e pastagem para bovinos
Resposta rápida
A escolha do suplemento mineral depende do que falta na pastagem da região — nos Cerrados do Brasil Central, fósforo, sódio, cobre, cobalto, iodo e zinco. As respostas em desempenho são geralmente mais dramáticas na estação chuvosa, quando o animal tem proteína e energia para converter mineral em ganho; na seca, animal que apenas mantém peso pode não responder ao fósforo suplementar. Manganês, zinco, sódio e magnésio não são estocados em quantidade suficiente e precisam de fornecimento constante, inclusive na seca.
A pergunta certa não é “qual sal mineral”
É “qual mineral falta no meu pasto, e o animal tem energia para usar o que eu forneço”.
A Embrapa Gado de Corte registra que, nos Cerrados do Brasil Central, os minerais deficientes são fósforo, sódio, cobre, cobalto, iodo e zinco. Deficiências de manganês não foram observadas com frequência, mas podem ocorrer em algumas regiões, como o norte de Mato Grosso. Há indicações de deficiência de selênio e enxofre em algumas regiões e — apesar de cálcio e magnésio serem considerados adequados nas forrageiras — indicações de falta em Roraima e no Pantanal Sul-Mato-Grossense.
Ou seja: a mistura certa depende de onde você está. Comprar sal mineral pelo preço, sem saber o que falta na sua pastagem, é apostar.
O contrassenso que quase ninguém conta
A crença comum é que sal mineral é coisa de seca. A pesquisa aponta o contrário:
As respostas da suplementação mineral no desempenho dos bovinos criados em áreas deficientes são geralmente mais dramáticas durante a estação chuvosa.
O motivo é encadeado. Na chuva, a forrageira está em crescimento e os bovinos dispõem de proteína e energia suficientes para sustentar ganho de peso — e é justamente aí que a demanda por minerais aumenta e a suplementação se converte em resultado.
Na seca, acontece o inverso. Apesar da queda de fósforo nas forrageiras maduras, a resposta ao fósforo suplementar em animais que estão perdendo ou apenas mantendo peso pode ser pequena ou inexistente, porque proteína e energia são as deficiências mais limitantes naquele momento.
Tradução prática: mineral não substitui comida. Fornecer sal mineral caro para animal em restrição energética é gastar sem retorno. Nessa época, alguma suplementação proteico-energética pode ser necessária — e ela também melhora o aproveitamento dos minerais fornecidos.
Mas não é para parar de fornecer na seca
Bovinos acumulam reservas de alguns minerais e as usam em períodos de restrição: cobre e vitamina B12 no fígado, selênio no músculo e fígado, cálcio e fósforo nos ossos. Isso permite que o animal fique bem por alguns meses mesmo com dieta deficiente.
Outros minerais não são armazenados o suficiente, ou as reservas não ficam disponíveis: manganês, zinco, sódio e magnésio. Esses precisam ser fornecidos constantemente, inclusive na estação seca.
Quem precisa mais
As categorias mais exigentes:
- Fêmeas em produção — especialmente novilhas, que somam as exigências de gestação e de crescimento
- Animais jovens com altas taxas de ganho de peso
A exigência de fósforo acompanha o ganho, e a diferença é grande:
| Situação (novilho) | Fósforo |
|---|---|
| Mantença | 4,7 g/dia |
| Mantença + ganho de 0,5 kg/dia | 10,2 g/dia |
| Mantença + ganho de 1 kg/dia | 16,5 g/dia |
Como a taxa de crescimento ósseo é maior nos jovens, um animal mais maduro requer relativamente menos cálcio e fósforo por quilo de ganho.
Nas vacas de cria, a suplementação de fósforo tende a responder melhor durante a lactação, aumentando digestibilidade, consumo de matéria seca e produção de leite. Já vacas em final de gestação com dieta deficiente podem não responder — provavelmente porque a reabsorção óssea nessa fase é uma resposta fisiológica obrigatória, e o fósforo está sendo mobilizado do próprio osso.
Há ainda um efeito que se paga na geração seguinte: a suplementação adequada das vacas gestantes permite que os bezerros nasçam com reservas minerais suficientes para prevenir deficiências.
Como fornecer
Para bovinos mantidos exclusivamente a pasto, a suplementação mineral deve preferencialmente ser feita:
- Em cochos cobertos
- Colocados em locais estratégicos, protegidos dos ventos e chuvas predominantes
- Regularmente abastecidos
- Em número adequado, de fácil acesso também para os bezerros
O sucesso depende de duas coisas ao mesmo tempo: o equilíbrio e a qualidade da mistura e o consumo estar dentro da faixa esperada. Cocho vazio metade do mês, ou consumo muito acima ou abaixo do previsto, invalida qualquer formulação boa.
Em confinamento, o cocho de sal fica longe dos bebedouros para evitar aglomeração, e 4 metros atendem 100 animais.
Cuidado com o enxofre
Se o enxofre for incluído na mistura, a relação N:S da dieta deve ficar em torno de 12:1. Durante a seca, a necessidade de enxofre pode ser menor, porque o teor de proteína das forrageiras cai com a maturidade.
Excesso de enxofre está ligado à redução na disponibilidade de cobre e selênio para o animal e ao aparecimento de casos de polioencefalomalacia.
É um bom lembrete do princípio geral: em mineral, mais não é melhor. Excesso de um elemento bloqueia a absorção de outro.
Sobre formular a própria mistura
É possível, e para rebanhos maiores costuma compensar. Mas a mistura precisa ser balanceada conforme as exigências nutricionais das categorias do rebanho e a composição real da pastagem — o que exige análise e acompanhamento técnico. Ajuste de dieta e diagnóstico de deficiência são decisões profissionais, feitas com dados da sua propriedade.
Por onde começar
- Descubra o que falta na sua região — os deficientes do Cerrado são uma referência, não um laudo da sua fazenda.
- Garanta energia e proteína primeiro. Mineral sobre animal em restrição não converte.
- Separe as categorias: novilhas e vacas em lactação exigem mais.
- Monte cocho coberto, acessível a bezerro e sempre abastecido.
- Acompanhe o consumo — é metade do resultado.
- Não empilhe suplementos. Excesso de um mineral prejudica a absorção de outro.
O manejo do rebanho de corte está em gado de corte e o do leiteiro, em gado leiteiro.