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Meliponicultura: criação de abelhas sem ferrão

Resposta rápida

Meliponicultura é a criação racional de abelhas-sem-ferrão, que são fauna silvestre brasileira e por isso têm regra própria: a Resolução CONAMA 346/2004 dispensa de autorização de funcionamento os meliponários com menos de cinquenta colônias, de produção artesanal e com abelhas da própria região de ocorrência natural — as três condições juntas —, e veda criar espécie fora da região onde ela ocorre. As colônias se obtêm por ninho-isca, compra de produtor autorizado ou divisão, com revisão a cada 30 dias.

1 artigoAtualizado em

Antes da caixa, a lei

Abelha nativa é fauna silvestre brasileira. Isso muda tudo — não é como comprar uma colmeia de Apis, e é a informação que falta na maior parte do conteúdo sobre o tema.

A Resolução CONAMA nº 346, de 16 de agosto de 2004, disciplina a criação. Três artigos decidem o que você pode fazer:

1. Não se pode criar abelha nativa fora da região de ocorrência natural dela. O art. 6º é literal: fica vedada a criação de abelhas nativas fora de sua região geográfica de ocorrência natural, exceto para fins científicos. Comprar uma espécie de outro estado porque “é mais bonita” ou “produz mais” contraria a norma — e o transporte entre estados exige autorização do IBAMA.

2. Colônia só pode ser vendida se veio de multiplicação ou de ninho-isca. O art. 4º permite comercializar colônias ou parte delas desde que sejam resultado de métodos de multiplicação artificial ou de captura por ninhos-isca. Colônia extraída destrutivamente de tronco de árvore não entra nessa condição.

3. Meliponário pequeno é dispensado de autorização de funcionamento — mas com três condições juntas. O art. 5º, §2º dispensa os meliponários com menos de cinquenta colônias, destinados à produção artesanal, de abelhas na sua região geográfica de ocorrência natural. Faltando qualquer uma das três, a dispensa não se aplica.

Repare no que a dispensa não diz: ela é da autorização de funcionamento. O §1º trata separadamente da inclusão do criador no Cadastro Técnico Federal do IBAMA. E o art. 9º delegou ao IBAMA baixar as normas de regulamentação da atividade.

Além disso, estados têm regras próprias — o Mato Grosso do Sul, por exemplo, tem lei que proíbe introduzir espécies que não ocorram naturalmente no estado.

Por isso a orientação honesta é: confirme a situação atual no órgão ambiental do seu estado antes de comprar a primeira colônia. O descumprimento sujeita o infrator às penalidades da Lei nº 9.605/1998.

Qual espécie ocorre no seu estado

A Embrapa publica uma tabela de ocorrência por estado. Algumas referências:

Espécie Nome comum Onde ocorre (exemplos)
Melipona scutellaris uruçu, uruçu-nordestina AL, BA, CE, PB, PE, RN, SE
Melipona subnitida jandaíra AL, BA, CE, MA, PB, PE, PI, RN
Melipona fasciculata tiúba, uruçu-cinzenta MA, MT, PA, PI, TO
Melipona quadrifasciata mandaçaia ES, MG, MS, PR, RJ, RS, SC, SP
Melipona rufiventris uruçu-amarela, tujuba BA, DF, GO, MG, MS, MT, PI, SP, TO
Tetragonisca angustula jataí, mariola, abelha-ouro ocorrência ampla, na maior parte dos estados

Além do lado legal, há o lado prático: abelhas da região já estão adaptadas à flora local, à temperatura e ao regime de chuva. Colônias introduzidas de fora exigem manutenção mais cuidadosa e muitas vezes morrem — gastando tempo e dinheiro do produtor e podendo contribuir para a extinção das espécies.

E há o lado da produção: em geral, quanto menor a abelha e o ninho, menor a produção de mel. A jataí é encantadora e fácil, mas não é uma escolha de renda.

Como obter as primeiras colônias

Três caminhos legítimos: ninho-isca, compra de produtor autorizado e divisão das próprias colônias.

O ninho-isca é o mais barato. Como a Embrapa descreve:

  • Feito de garrafa PET ou embalagem cartonada, coberta com plástico preto para impedir a entrada de luz
  • Tampa furada, simulando a entrada da colônia, com um pouco de cerume ao redor do orifício
  • Banho interno com mistura atrativa de álcool, própolis e/ou cerume
  • Instalado próximo a ninhos naturais, a 0,5 a 1,5 metro de altura, em local sombreado e próximo de água
  • Sempre no período de abundância de recursos naturais

Capturada a colônia, aguarde cerca de 30 dias antes de transferir para o local definitivo — mais, dependendo da espécie.

Onde instalar o meliponário

Item Referência
Distância de engenhos, fábricas de doces e refrigerantes, estradas e criação animal 1.500 m
Distância de outros meliponários 1.500 m
Altura das colmeias cerca de 0,5 m do chão, em cavaletes individuais
Distância entre caixas 0,5 m (abelha pequena) a 3,0 m (abelha grande)

O número de 1.500 metros tem uma justificativa explícita: o raio de voo das abelhas-sem-ferrão varia de 120 m a 2.500 m conforme a espécie, e 1.500 m dá margem de segurança para a qualidade dos produtos. A própria Embrapa registra que ainda não há pesquisa definindo distância mínima.

Outros critérios: local limpo, sombreado, protegido do vento, de fácil acesso — e seguro contra furto, já que as abelhas são dóceis e a caixa é fácil de levar.

Evite instalar perto de colônias de espécies saqueadoras: tataíra, arapuá, abelha limão, abelha africanizada e algumas Scaptotrigona.

A flora da região é o critério mais importante de todos. Quanto mais próximo da flora a ser explorada, maior a produção.

Um meliponário, uma espécie

Essa é a recomendação, e ela contraria o que a maioria dos iniciantes faz por gosto.

Colônias fortes, quando precisam se dividir, invadem as fracas. A Embrapa relata o caso no meliponário de Teresina: operárias de jandaíra começaram a entrar com alimento numa colônia de uruçu-amarela; algum tempo depois, a rainha e todas as operárias daquela colônia eram jandaíra.

Duas medidas ajudam:

  • Manter uma colmeia ou tronco oco vazio que já tenha abrigado ninho perto do meliponário — se uma colônia forte se dividir sem você perceber, será atraída pelo odor e se estabelecerá ali
  • Dividir as colônias fortes ou usá-las para fortalecer as fracas, com discos de cria nascente

A caixa racional

Recomenda-se trabalhar com colmeias moduláveis, com tampa, melgueira, sobreninho, ninho e fundo — o modelo INPA é a referência citada. A modulação permite ajustar o espaço ao desenvolvimento da colônia:

  • Período de fartura: acrescentar melgueira e sobreninho
  • Período de escassez: reduzir o espaço, o que facilita a regulação da temperatura interna e a defesa da colônia

Não existe um modelo único — o importante é que respeite a biologia da espécie, a arquitetura do ninho e a facilidade de manejo.

Revisão a cada 30 dias

O que observar: presença de cria e rainha, disponibilidade de alimento, excesso de batume, favos mofados, inimigos naturais, lixo, e se o espaço precisa aumentar ou diminuir.

Aproveite para limpar: remover lixo, lâminas de invólucro ressecadas, besouros, moscas e formigas. Havendo excesso de umidade, seque com pano ou papel-toalha.

Entre as revisões, dá para avaliar sem abrir a caixa, pela entrada: bom fluxo de operárias com pólen e material de construção indica colônia forte; pouco fluxo e muito detrito sendo removido indica enfraquecimento.

Inimigos naturais

Forídeos — moscas pequenas atraídas pelo odor do pólen fermentado, que fazem postura nos potes de pólen, favos de cria e lixeira. Prevenção: manter as colônias fortes e não danificar potes durante o manejo. Armadilha: potinho de plástico com vinagre, com furo na tampa que passe o forídeo e não a abelha.

Mosca Hermetia illucens (soldado-negro) — faz postura em frestas e orifícios de ventilação; as fêmeas depositam até 400 ovos. Prevenção: vedar frestas das colônias fracas, de preferência com fita crepe.

Formigas — atacam principalmente colônias fracas. Prevenção: colmeias bem vedadas e cavaletes com protetor.

Lagartixas, pássaros, aranhas e sapos — atacam na entrada; protetores na entrada e cavaletes de 50 cm resolvem a maior parte.

Colheita do mel

  • Só de potes já fechados
  • Com bomba de sucção ou seringa
  • Com luvas e jaleco, e higiene do local
  • Não furar os potes e deixar escorrer pela caixa até uma peneira — essa prática, comum, contamina o produto
  • Líquido muito claro e aguado nos potes é néctar: não colher nem misturar

O motivo do rigor: o mel de abelha-sem-ferrão tem teor de água naturalmente elevado, o que pode levar à fermentação, tornando o produto impróprio e reduzindo a vida de prateleira.

Por onde começar

  1. Descubra quais espécies ocorrem no seu estado — é requisito legal, não preferência.
  2. Consulte o órgão ambiental estadual sobre cadastro e autorização antes de comprar.
  3. Escolha a espécie pela flora da sua região, e não pela foto.
  4. Comece por ninho-isca ou produtor autorizado, nunca por extração destrutiva.
  5. Instale um meliponário de uma espécie só, com as distâncias respeitadas.
  6. Assuma a revisão de 30 dias como rotina — sem ela, forídeo e mosca resolvem o assunto por você.

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