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Criação e doma de cavalos: do potro ao cavalo montado

Resposta rápida

Os equídeos se orientam pelos sons, e ruídos altos e desconhecidos os estressam — o que explica por que voz constante e segura institui confiança no manejo. Cavalariças são herança de clima temperado e exigem arejamento no Brasil. O animal nunca deve ser amarrado pelo pescoço, pelo risco de asfixia, e a contenção química é prescrição veterinária. Como são muito sociáveis, o isolamento visual deve ser evitado, sob pena de estereotipias — e o melhor enriquecimento ambiental é a oportunidade de pastejo.

O cavalo se orienta pelo som

Antes de qualquer método de doma, vale entender uma característica que organiza todo o manejo: os equídeos se guiam, se orientam e formam consciência do entorno pelos sons que captam.

A consequência é direta: barulhos e ruídos desconhecidos, constantes e altos estressam os animais. Por isso, áreas muito ruidosas são desaconselhadas para instalações — e por isso ruídos de fundo brandos, ou música, podem ser usados para mascarar e habituar o animal a sons inesperados que o assustariam.

Isso também explica por que a voz funciona no manejo: usar voz constante e segura identifica a presença do manipulador e institui confiança. Não é misticismo de doma racional — é como a espécie percebe o ambiente.

Doma racional: o que a expressão descreve

“Doma racional” designa abordagens que trabalham com o comportamento natural do cavalo — aproximação gradual, dessensibilização, uso de pressão e alívio, e ausência de métodos que causem dor ou medo — em vez de submissão pela força.

Não existe um selo oficial no Brasil que certifique o método, e o termo aparece com significados variados no mercado. O que dá para avaliar objetivamente em quem oferece o serviço:

  • Como o profissional contém e conduz o animal
  • Se o tempo de trabalho respeita o estado do cavalo
  • Se há sinais de estresse contínuo — sudorese, tremor, comportamento de fuga
  • Se o animal evolui entre as sessões ou apenas se resigna
  • Que equipamentos são usados, e se algum deles causa dor

Um princípio geral do manejo de equídeos que serve de bússola aqui: os tratadores devem agir com calma, paciência e respeito aos animais.

Contenção: o que é seguro

O equino não deve ser amarrado pelo pescoço — há risco de asfixia. É a regra de segurança mais importante e uma das mais desrespeitadas.

Para procedimentos, recomenda-se brete individual de contenção, com medidas médias aproximadas:

Dimensão Medida
Altura lateral 140 cm
Altura do portão traseiro 85 cm
Largura 80 cm
Comprimento 185 cm

As dimensões variam com o porte da raça. O brete deve ter piso não escorregadio, de material áspero ou emborrachado, acesso livre à região da cabeça, uma barra móvel na frente e pelo menos uma lateral livre — evite instalar colado à parede.

Atenção especial à proteção da cabeça do animal. O tapa-olhos pode facilitar aproximações e conduções. O uso de “pito” ou “cachimbo” não é aconselhável, sendo admitido apenas quando necessário para procedimentos rápidos de tratamento e cuidado. A prega cutânea na tábua do pescoço tem sido efetiva para procedimentos rápidos.

Contenção química é prescrição veterinária — deve ser indicada e supervisionada pelo médico veterinário responsável.

Instalações: cavalariça é herança de clima temperado

Essa é a observação que reorienta o projeto no Brasil. Cavalariças são herança de países de clima temperado, e usá-las no ambiente tropical exige arejamento adequado.

Duas orientações que se contrapõem e precisam ser decididas caso a caso: a construção no sentido norte-sul favorece o modelo de cavalariça dupla com corredor comum em “L”, “U” ou quadrado, com pátio interno; já a orientação leste-oeste evita sol intenso dentro do abrigo em regiões de alta insolação.

Outros critérios:

  • Evitar locais com retenção excessiva de umidade
  • Corredor com largura mínima de aproximadamente dois metros
  • Cobertura que previna calor e ruído — telhas de barro, cerâmicas ou antitérmicas/antirruído
  • Ventilação uniforme, sem correntes intensas nem dispersão de poeira

Cavalo isolado adoece

Os equídeos são muito sociáveis, e isolamentos completos — pelo menos o visual — devem ser evitados.

Na prática:

  • Separação entre baias por janelas, grades ou telas, que facilitam ventilação e visualização entre os animais
  • A parte inferior da janela alta o suficiente para o animal não chutá-la, protegida por barras de ferro ou similar
  • Porta modelo holandesa, em duas meias-portas, permitindo ao animal ver o exterior da baia

Animais mantidos muito tempo confinados e isolados tendem a desenvolver estereotipias ou vícios. O enriquecimento ambiental ajuda — bolas grandes, garrafas penduradas, espelhos de acrílico, e até pôster de cavalo em tamanho real, que imita contato social e reduz vícios como balançar cabeça e pescoço.

Mas a conclusão da literatura é direta e vale mais que qualquer acessório: o melhor enriquecimento é a oportunidade de pastejo.

Isso liga diretamente ao tema anterior — vícios como a aerofagia estão entre os fatores associados a cólica. Confinamento sem pastejo cobra o preço por vários caminhos.

A inspeção diária

O que monitorar, em animais estabulados, durante a limpeza, o manejo, a alimentação ou a higiene:

  • Consumo de água e de alimento
  • Condição das fezes e da urina
  • Presença de secreções

E, periodicamente:

  • Escore de condição corporal — uma medida consistente da condição nutricional
  • Temperatura retal, frequência cardíaca e frequência respiratória

Em animais a campo, a inspeção se faz no momento em que estão reunidos junto aos cochos ou ao local de pastejo.

Conhecer os valores normais do seu animal em repouso é o que permite perceber a alteração cedo — especialmente a frequência cardíaca, que é um dos indicadores de gravidade em cólica.

Identificação e trânsito

Sobre marcação: a marcação a ferro quente causa dor extrema e não é recomendada. As alternativas são a marcação a ferro frio (criogênico) — segura, econômica e fácil, embora exija tricotomia — e a identificação eletrônica (chipagem), indolor, rápida e segura, com o animal bem contido para o implante. A tatuagem no lábio exige alicate limpo, alinhado e lubrificado, com códigos livres de ferrugem e agulhas intactas e estéreis.

Sobre transporte: o documento oficial para transporte de animal no Brasil é a Guia de Trânsito Animal (GTA), e há norma específica para equídeos, disponível no portal do MAPA. O transporte de carga viva também é regulamentado pelo CONTRAN, com normas de segurança e bem-estar.

Quem for comprar, vender ou levar o animal a evento precisa resolver isso antes de carregar o caminhão.

Sanidade e quarentena

Animais que chegam de outra propriedade devem passar por quarentena. As barreiras sanitárias combinam elementos físicos (cercas, muros, instalações de isolamento), químicos (pedilúvios, banheiras de imersão, desinfetantes) e de procedimento (isolamento, controle de trânsito, inspeção clínica, higiene e desinfecção).

Programa de vacinação, controle parasitário e avaliação odontológica são definidos pelo veterinário responsável, conforme a realidade da propriedade e da região.

Por onde começar

  1. Projete pensando em clima tropical, e não copiando a cavalariça de foto europeia.
  2. Garanta contato visual entre os animais — isolamento produz vício.
  3. Priorize pastejo: é o melhor enriquecimento ambiental que existe.
  4. Nunca amarre pelo pescoço.
  5. Estabeleça a inspeção diária e conheça os parâmetros normais do seu animal.
  6. Resolva GTA e sanidade antes de qualquer movimentação.

O cuidado com os cascos está em casqueamento e ferrageamento e as raças em raças de cavalo.

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